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 Antes que o dia Acabe, Seja Feliz! (Ajahn Brahm)

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Mensagens : 88

Mensagem Sex 10 Out 2014 - 10:08


Compartilho alguns ensinamentos de Ajahn Brahm, que foram retirados do livro "Antes que o dia Acabe, seja Feliz"

***

Dois tijolos errados

Depois que compramos as terras para construir nosso monastério, em 1983, ficamos quebrados. Estávamos com uma grande dívida. Não havia construções naquelas terras, nem mesmo um estábulo. Naquelas primeiras semanas, dormimos sobre portas velhas que tínhamos comprado em um depósito; colocamo-las sobre tijolos, um em cada ponta, para deixá-las acima do chão (não usávamos colchões, é claro - éramos monges da floresta).

O abade tinha a melhor das portas, a lisa. Minha porta tinha uma marca grande no centro, onde a maçaneta provavelmente ficava. Fiquei aliviado porque pelo menos tinha tirado a maçaneta, mas havia um buraco exatamente no meio da minha cama-porta. Ainda fiz uma brincadeira, dizendo que agora nem precisaria sair da cama para ir ao banheiro! A verdade, contudo, era que um vento muito gelado passava pelo buraco. Não consegui dormir muito naquelas noites.

Éramos pobres monges que precisavam de um abrigo. Mas não podíamos contratar um pedreiro - os materiais de construção já eram suficientemente caros. Então, tive que aprender a construir: como preparar fundações, deitar concreto e tijolos, erguer o telhado, construir o encanamento... enfim, tudo. Fui um físico teórico e professor - nada tinha me preparado para o trabalho manual. Alguns anos depois, fiquei bastante eficiente em construções e inclusive chamava minha equipe de CBC - Companhia Budista de Construção. Mas o começo foi muito difícil.

Colocar um tijolo no lugar pode parecer fácil: um pouco de massa embaixo, um tapinha aqui, um tapinha ali. Quando comecei a construir paredes, dava um tapinha de um lado do tijolo para deixá-lo alinhado, e o outro lado subia. Então eu dava um tapinha do outro lado e o primeiro subia. Depois que conseguia alinhá-lo, olhava para o outro lado e ele estava alto demais. Pode tentar!

Por ser um monge, eu tinha paciência e bastante tempo. Deixei cada tijolo perfeito, não importando quanto tempo eu levava fazendo isso. Depois de algum tempo, terminei a primeira parede e me afastei um pouco para observá-la. Foi nesse momento que percebi - ah, não! - que tinha me esquecido de alinhar dois tijolos. Todos os outros estavam perfeitamente alinhados, mas esses dois estavam inclinados. Ficaram horríveis, estragaram toda a parede. Meu trabalho estava arruinado.

A essa altura, o cimento estava praticamente seco, por isso não podia tirá-los. Perguntei ao abade. Perguntei ao abade se poderia derrubar parte da parede e recomeçar o trabalho - ou, melhor ainda, destruir tudo. Eu tinha cometido um erro terrível e estava envergonhado. O abade disse que não, que a parede teria que ficar.

Quando mostrava o monastério aos primeiros visitantes, sempre evitava mostrar a eles a minha parede. Detestava que alguém visse. Então um dia, cerca de três ou quatro meses depois que a tinha erguido, estava acompanhando um visitante e ele reparou na parede.

- É uma bela parede - disse ele.

- Meu senhor - respondi surpreso -, acho que o senhor esqueceu seus óculos no carro. Observe com mais cuidado e verá que aqueles dois tijolos mal colocados estragaram a parede.

O que ele disse em seguida mudou meu ponto de vista a respeito daquela parede, de mim mesmo e de muitos outros aspectos de minha vida. Ele disse:

- Sim, eu vejo que há dois tijolos errados. Mas também vejo que há 998 excelentes tijolos.

Fiquei impressionado. Pela primeira vez em três meses, eu podia ver que havia outros tijolos naquela parede, além daqueles que estavam errados. Acima, abaixo, à esquerda e à direita dos dois tijolos errados estavam bons tijolos, tijolos perfeitos. Mais: os tijolos perfeitos eram muitos, muitos mais que os errados. Antes meus olhos estavam focados apenas nos meus erros: estava cego para todo o resto. É por isso que eu não conseguia encarar essa parede e não queria que outras pessoas a vissem. É por isso que queria destruí-la. Mas, agora que eu podia ver os tijolos corretos, a parede não parecia mais tão ruim. No final das contas ela era, como visitante tinha dito, "uma bela parede". E ela ainda está lá, vinte anos depois, mas eu esqueci exatamente quais eram os tijolos errados. Eu literalmente não consigo mais enxergar os meus erros.

Quantas pessoas já terminaram um relacionamento ou se divorciaram porque tudo o que podiam enxergar em seu parceiro eram os dois tijolos errados? Quantos de nós já ficamos deprimidos ou mesmo tentamos suicídio porque só conseguíamos enxergar nossos dois tijolos errados? Na verdade, há muitos, muitos tijolos certos, tijolos perfeitos - acima, abaixo, à esquerda e à direita dos errados -, mas às vezes simplesmente não conseguimos enxergá-los. Ao contrário, cada vez que olhamos, nossos olhos ficam presos apenas nos erros. Os erros são tudo o que enxergamos e pensamos que eles são a única coisa que está ali, então queremos destruí-los. E algumas vezes, infelizmente, derrubamos "belas paredes".

Todos temos nossos dois tijolos errados, mas os tijolos perfeitos em cada um são muito mais que os ruins. Quando conseguimos perceber isso, as coisas não parecem mais tão ruins. Não apenas conseguimos viver em paz com nós mesmos, mas também aprendemos a conviver com nossos erros e com os erros de nossos parceiros. Essa pode ser uma má notícia para os advogados de divórcio, mas é uma boa notícia para você.

Já contei essa anedota várias vezes. Depois de uma certa vez, um pedreiro se aproximou e me contou um segredinho profissional.

- Nós, pedreiros, sempre cometemos erros. Mas dizemos a nossos clientes que é uma característica especial e que nenhuma outra casa na vizinhança tem esse detalhe. E então cobramos a mais por isso!

Então, as características especiais em sua casa provavelmente começaram como erros. Da mesma maneira, aquilo que você talvez veja como erros em si mesmo, em seu parceiro ou na vida, em geral, podem se tornar características especiais, enriquecendo seu tempo aqui, assim que você deixar de se concentrar apenas neles.

Ajaan Brahm no livro "Antes que o dia Acabe seja Feliz"


***

Medo de falar em público


Alguém me disse uma vez que um dos maiores medos das pessoas é falar em público. Eu tenho que falar em público com  certa  frequência, em templos e conferências, em casamentos e funerais, em rádios e até mesmo na TV, ao vivo, de  vez em quando. Faz parte do meu trabalho.

Eu me lembro uma vez em que, cinco minutos antes de dar uma palestra, o medo tomou conta de mim. Eu não tinha preparado nada: não tinha a menor ideia do que iria dizer. Cerca de 300 pessoas estavam sentadas numa sala, esperando para serem inspiradas. Elas tinham largado mão de suas coisas para estar ali e me ouvir falar.

Comecei a pensar comigo mesmo: "E se eu não conseguir pensar em nada pra dizer? E se eu falar alguma coisa errada? E se eu fizer alguma besteira?"
Todo medo começa com um "e se" e continua com algo desastroso. Eu estava prevendo o futuro de maneira negativa. Estava sendo idiota. Eu sabia que estava sendo um idiota. Sabia toda a teoria, mas na prática ela não estava funcionando. O medo continuou aumentando. Eu estava com problemas.

Naquela noite, desenvolvi um truque, ou, como chamamos no jargão de monge, um jeitinho habilidoso, que superou meu medo naquele dia e tem funcionado desde então. Decidi que não importava se minha plateia ia gostar ou não da palestra, contanto que eu gostasse. Decidi que ia me divertir.

Agora, toda vez que apresento uma palestra, eu me divirto. Conto histórias engraçadas, geralmente sobre mim mesmo e rio delas junto com a plateia.

Uma vez, dando entrevista a uma rádio em Cingapura, contei sobre a previsão de que Ajahn Chah tinha feito sobre a moeda corrente futuro - o povo de Cingapura se interessa muito por questões econômicas. Ele previu que as pessoas usariam pedacinhos de titica de galinha como dinheiro. As pessoas andariam de um lado para outro com os bolsos cheios de titica de galinha. Os bancos estariam cheios de caca e os ladrões tentariam roubá-las. As pessoas ricas teriam muito orgulho de seus sacos de titica de galinha e os pobres sonhariam em ganhar uma montanha de caca na loteria. Os governos se concentrariam na situação da titica de galinha em seus países e questões sociais e ambientais seriam deixadas para depois, assim que houvesse caca o suficiente.

No fim das contas, qual a diferença entre notas de papel, moedas e caca de galinha? Nenhuma.
Eu me diverti contando essa história. Ela nos mostra o quanto são estranhos os nossos valores. E é divertida. Os ouvintes de Cingapura adoraram.

Eu percebi que, quando você decide que vai se divertir ao dar uma palestra, você relaxa. É psicologicamente impossível ter medo e se divertir ao mesmo tempo. Quando estou relaxado, as ideias fluem livremente durante a palestra e saem pela minha boca com a maciez da eloquência. Mais: a plateia não fica entediada quando a palestra é divertida.

Um monge tibetano explicou uma vez a importância de fazer a plateia rir durante uma palestra.

- Assim que eles abrem a boca para rir, você joga para dentro a pílula da sabedoria.

Eu nunca preparo minhas palestras. Preparo, sim, minha mente e meu coração. Monges da Tailândia são treinados para nunca preparar uma palestra, mas para estarem prontos para falar a qualquer hora e em qualquer lugar.
Era época do Magha Puja, o segundo festiva budista mais importante do ano na Tailândia. Eu estava no monastério de Ajahn Chah, Wat Nong Pah Pong, com cerca de duzendos monges e milhares de pessoas. Ajahn Chah era muito famoso e eu era monge há apenas cinco anos.

Em ocasiões importantes como essa, Ajahn Chah geralmente dava uma palestra depois das cerimônias noturnas, mas nem sempre. Às vezes, ele passeava entre os monges e, se o olhar dele cruzasse você com o seu,  você estava frito. Ele pediria que você fizesse o sermão. Mesmo eu sendo um monge ainda muito jovem em comparação com tantos outros ao meu redor, era impossível imaginar o que Ajahn Chah decidiria fazer. Ele olhou para a fila de monges. Seus olhos alcançaram os meus e passaram direto. Silenciosamente, suspirei de alívio. Então, os olhos voltaram. Adivinhem onde pararam?

- Brahm, apresente o sermão principal - ordenou ele.

Não havia escapatória. Tive que apresentar um sermão em thai  sem nenhum preparo durante uma hora inteira, diante de meu professor, de meus colegas monges e milhares de leigos. O que importa nao é se o sermão foi com ou não. O importante é que eu consegui apresentá-lo.

Ajahn Chah jamais dizia se o sermão tinha sido bom ou não. Isso não era importante. Uma vez, ele pediu a um talentoso monge ocidental que fizesse um sermão para alguns leigos que tinham aparecido no monastério. Ao fim de uma hora, o monge passou a finalizar o sermão em thai . Ajahn Chah o interrompeu e pediu que ele continuasse por mais uma hora. Era difícil. Mesmo assim, ele continuou. Assim que ele chegou ao fim da batalha dessa segunda hora em thai , Ajahn Chah ordenou que ele apresentasse mais uma hora de sermão. Era impossível. Os ocidentais não conhecem a língua thai  muito bem. Você acaba repetindo a mesma coisa milhares e milhares de vezes. A plateia fica entediada. Mas não havia escolha. No fim da terceira hora, a maioria das pessoas já tinha ido embora e as que tinham ficado estavam falando entre si. Até os mosquitos tinham dormido. E, acredite se quiser, no fim da terceira  hora, Ajahn Chah ordenou mais uma hora de sermão! O monge ocidental obedeceu. Ele disse que depois dessa experiência (e o sermão finalmente acabou, depois da quarta hora), depois de ter alcançado o pior que a plateia pode lhe oferecer, ele não temia mais falar em público.

Era assim que éramos treinados pelo grande Ajahn Chah.

***

O mundo livre

Durante várias semanas, um colega monge ensinou meditação em uma prisão de segurança máxima nos arredores de Perth. Um pequeno grupo de prisioneiros participava das sessões e respeitava muito o monge. No fim de uma sessão, eles perguntaram como era a rotina em um monastério budista.

- Acordamos às quatro horas, todos os dias. Às vezes, está muito frio, pois nossos quartinhos não tem aquecimento. Fazemos só uma refeição por dia, com os alimentos misturados em uma tigela. À tarde e à noite, não podemos comer nada. Não há sexo ou álcool, é claro. Também não temos televisão, rádio ou música. Nunca assistimos a filmes nem praticamos esportes. Falamos pouco, trabalhamos muito e usamos nosso tempo livre para ficar sentados de pernas cruzadas observando nossa respiração. Ah, sim, e dormimos no chão.

Os prisioneiros ficaram espantados com a austeridade espartana de nossa vida no monastério. Perto disso, a vida deles na prisão parecia em um hotel cinco estrelas. Um dos prisioneiros ficou tão compadecido com a terrível vida de seu amigo monge que até sugeriu:

- Deve ser terrível viver nesse lugar. Por que você não vem para cá, viver conosco?

O monge contou que todos na sala caíram na gargalhada. Eu também, quando ele contou a história. Mas prestei atenção naquelas palavras.

É verdade que meu monastério é muito mais ascético que a mais severa das prisões para os criminosos da sociedade. Mesmo assim, muitos vêm para cá por vontade própria e são felizes aqui. E muitos querem escapar das prisões e são infelizes lá. Por quê?

É porque os internos do meu monastério querem permanecer ali. Em uma prisão, os internos não querem ficar. Essa é a diferença.

Qualquer lugar em quem você não queira estar, por mais confortável que seja, é uma prisão para você. Esse é o verdadeiro sentido da palavra “prisão” – qualquer situação em que você não queira estar. Se você está em um trabalho no qual não quer estar, então você está em uma prisão. Se está em um relacionamento no qual não quer estar, está em uma prisão. Se está em um corpo doente e cheio de dor no qual você não quer estar, esse corpo também é uma prisão para você. Uma prisão é qualquer situação em que você não quer estar.

Então, como você escapa das prisões da vida? É fácil. Mude a visão de que você tem de sua situação para “querendo estar lá”. Mesmo em Bangu I ou em algo um pouco melhor – meu monastério -, quando você quiser estar lá, não será mais uma prisão para você. Ao mudar sua percepção de seu trabalho, seu relacionamento ou seu corpo doente e ao aceitar sua situação em vez de rejeitá-la, você não se sentirá mais em uma prisão. Quando você se contentar em estar ali, estará livre.

Liberdade é ficar contente de estar onde está. Prisão é querer estar em outro lugar. O Mundo Livre é o mundo que alguém que está contente conhece. A verdadeira liberdade é a liberdade do desejo e não a liberdade de desejar.


***

Dois tipos de liberdade


Há dois tipos de liberdade em nosso mundo: a liberdade de desejar e a liberdade dos desejos.

Nossa moderna cultura ocidental reconhece apenas a primeira, a liberdade de desejar. Então ela a celebra, colocando-a logo no início das constituições e declarações de direitos humanos. Pode-se dizer que o credo da maioria das democracias ocidentais é a proteção da liberdade que o povo tem para desejar, tanto quanto possível. É interessante que, nesses países, as pessoas não se sentem muito livres.
O segundo tipo de liberdade, a liberdade dos desejos, é celebrada apenas em algumas comunidades religiosas. Ela representa um contentamento e uma paz que são livres dos desejos. É incrível como nessas comunidades abstêmias, como os monastérios, as pessoas se sentem livres.

***

A Maior coisa do mundo
A filha de uma amiga dos tempos de colégio estava no primeiro ano do ensino fundamental. A professora perguntou àquela grande sala de crianças qual era a maior coisa do mundo.

- Meu pai – disse uma garotinha.
- Um elefante – respondeu um menino que tinha recentemente visitado um zoológico.
- Uma montanha – respondeu outro.
A filha da minha amiga respondeu:
- Meu olho é a maior coisa do mundo.
A sala ficou em silêncio, tentando entender a resposta da menina.
- Como assim? – perguntou a professora, também perplexa.
- Bem – começou a filósofa em miniatura -, meu olho pode ver o pai dela e pode ver um  elefante. E também pode ver uma montanha e muitas outras coisas. Como tudo isso cabe dentro do meu olho, meu olho deve ser a maior coisa da mundo!

Sabedoria não é aprender, mas ver claramente o que não pode ser ensinado.

Com todo o respeito à filha da minha amiga, eu prosseguiria mais um pouco em seu raciocínio. Não é o olho, mas sim a mente que é a maior coisa do mundo.

Sua mente pode ver tudo o que seu olho vê e pode ver ainda mais pela imaginação. Ela também conhece sons, que seus olhos não conseguem ver, e conhece o toque, tanto de coisas reais quanto imaginárias. Sua mente também consegue perceber o que está além de seus cinco sentidos.

Porque tudo o que pode ser sabido cabe em sua mente, sua mente deve ser a maior coisa do mundo. A mente contém tudo.

***

Culpa e Absolvição

Há alguns anos, uma jovem australiana veio me procurar em meu templo, em Perth. É comum que as pessoas procurem monges para ajuda-las com seus problemas, talvez porque sejamos mais baratos que os analistas. Ela estava atormentada por uma culpa. Seis meses antes, trabalhava em uma comunidade mineira no norte da Austrália.

O trabalho era difícil, mas o dinheiro era bom. O problema era que não havia muito o que fazer nas horas de folga. Então, em uma tarde de domingo, ela sugeriu à sua melhor amiga e ao namorado dela que saíssem para um passeio. Sua amiga e o namorado não queriam ir, mas ir sozinha não seria divertido. Então ela insistiu, implorou e reclamou até que eles concordaram em ir passear com ela.

Houve um acidente: o carro tombou na estrada, muito íngreme e escorregadia. A amiga da jovem faleceu; o namorado ficou paraplégico. O passeio tinha sido ideia dela, mas ela não tinha ficado machucada.
Ela me disse, com muita tristeza nos olhos:

- Queria tanto não ter insistido para que eles fossem. Ela ainda estaria aqui. Ele ainda teria as pernas. Eu não deveria ter feito com que eles fossem. Sinto-me terrível. Sinto-me tão culpada...

O primeiro pensamento que surgiu em minha mente foi reafirmar que não tinha sido culpa dela. O acidente certamente não estava em seus planos. Ela não queria machucar os amigos. Essas coisas acontecem, siga em frente. Não se sinta culpada. Mas o segundo pensamento que apareceu foi: “Aposto que ela já ouviu isso milhões de vezes e obviamente não funcionou.” Então fiz uma pausa, analisei a fundo a situação e disse a ela que era bom que ela se sentisse tão culpada.

Seu rosto passou da tristeza à surpresa e da surpresa ao alívio. Ela não tinha ouvido isso ainda: que deveria sentir-se culpada. Acertei em cheio. Ela se sentia culpada por se sentir culpada. Sentia-se culpada, e todos lhe diziam para que não sentisse. Ela sentia uma “dupla culpa”, culpa pelo acidente e culpa por se sentir culpada. Nossas mentes complicadas funcionam assim.

A partir do momento que pudemos lidar com o primeiro nível de culpa e estabelecer que ela podia sentir-se culpada, passamos ao segundo estágio da solução: o que fazer a respeito disso?

Existe um ditado budista que diz: “É melhor acender uma vela do que reclamar da escuridão.” Há sempre alguma coisa que podemos fazer em vez de nos sentirmos tristes, mesmo que essa coisa seja sentar-se quieto por algum tempo, sem reclamar. A culpa é um sentimento muito diferente do remorso. Em nossa cultura, culpa é uma sentença ditada por um juiz, em um tribunal. Se ninguém nos pune, procuramos nos punir por nossos erros, de um jeito ou de outro. Culpa significa punição, lá no fundo de nosso subconsciente.

Para isso, a jovem precisava de uma pena para absolvê-la da culpa. Dizer-lhe para esquecer e seguir em frente com a vida não seria o suficiente. Sugeri que ela fizesse trabalho voluntário na ala de reabilitação de algum hospital, cuidando dos que se feriram em acidentes nas estradas. Desse modo, pensei, ela se libertaria de sua culpa por meio do trabalho árduo e também, como geralmente acontece no trabalho voluntário, estaria sendo ajudada tanto quanto ajudando.
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