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 Impaciência e Aversão no começo da prática

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Define-se budista? : Sim
Mensagens : 473

Mensagem Ter 6 Ago 2013 - 21:06

Impaciência e Aversão no começo da prática
Um dos obstáculos mais enfrentados no início da prática budista, e que faz com que muitos desistam de buscar refúgio no Dharma de Buda, é a Impaciência - entretanto, precisamos perceber que a prática requer tempo, e que apesar de o destino do caminho ser a paz, isso não significa que a trilha até lá será desprovida de desconforto. Assim, para chegar ao destino, não seja aversivo ao sofrimento: observe-o!
Poucos são aqueles que não entestam com a impaciência e a insegurança com pouco tempo de prática budista. Dúvidas como "Estou fazendo certo? Por que parece que estou sofrendo mais depois de começar a meditar? Por que isso não está funcionando? É melhor eu tentar outra coisa!" podem nos desviar da prática e até nos deixar extremamente frustrados, o que faz muitos desistirem do Budismo - portanto, tome muito cuidado com essas indagações da mente, na verdade são pegadinhas de Mara para te desviar do caminho correto.
A questão é que não admitimos que o caminho correto envolva sofrimento - se é para acabar com o sofrimento, então o esperado é que eu vá me sentindo melhor no decorrer da prática, correto? Não necessariamente, pois isso pode demorar um pouco.
Um bom símile para representar o começo da prática é aquele que compara o início do treinamento da mente como acender a uma sala há muito abandonada: você sequer sabe o que há lá dentro, entretanto tal cômodo é a área central da sua casa, então você decide ver o que se encontra por lá. Quando você começa a explorar o local com uma pequena lanterna, você vê várias teias de aranha, muita poeira e desorganização - ou seja, você vê muitas corrupções em sua mente, que se encontra repleta de traumas, sentimentos reprimidos, frustrações, infelicidade e raiva. Você começa a ficar com medo de ter de encarar tanta sujeira, e aqui muitos já travam. Depende de você dar prioridade ao seu medo ou à vontade de realmente compreender o que está naquela sala. Se você der prioridade a segunda alternativa, você começa a trazer mais luz para o cômodo e com isso você vai vendo cada vez mais poeira - um desespero pode crescer: "Puxa! Quanto mais luz eu aplico aqui neste lugar, mais coisas aparecem para eu limpar!".
Isso mostra que esperamos que ao começar já alcancemos elevados estados de concentração, ou seja, esperamos trazer a luz a uma sala abandonada esperando encontrar limpeza e organização, mas raramente é assim. Primeiro, nós começamos a tomar consciência de algo que havíamos abandonado - isso porque por muito tempo, ou talvez por muitas vidas, fizemos as coisas inconscientemente (no piloto automático) sem estarmos atentos as nossas atitudes, sobre que falávamos, o que pensávamos e quais emoções surgiam em nossas mentes - logo, começamos a trazer luz para o quarto abandonado. O problema é que achamos que apenas aplicando um pouco de Atenção Plena e Vigilância nossa mente já ficará pacífica e maravilhosa, mas, ao contrário, só entestamos com mais sofrimento. Isso porque não basta trazer um pouco de luz para o cômodo ficar limpo, é necessário pôr a mão na massa!
E como fazer isso? Bem, primeiro você vai precisar enxergar melhor a situação do cômodo para saber o que fazer, e é aqui que entra a Paciência, virtude que pode ser resumida do ponto de vista budista como a capacidade de tolerar coisas insuportáveis e desagradáveis para as quais estamos agrilhoados pela Aversão:
[Buda]: "Quais impurezas, monges, devem ser abandonadas com a paciência? Neste caso um monge, refletindo de maneira sábia, aguenta o frio e o calor, fome e sede, o contato com moscas, mosquitos, vento, sol e criaturas rastejantes; ele aguenta palavras ditas de forma grosseira, desagradável e sensações no corpo que são dolorosas, penetrantes, torturantes, desagradáveis, perigosas e que ameaçam a vida. Enquanto que impurezas, aflição e febre podem surgir naquele que não aguenta essas coisas, não existem impurezas, aflição e febre naquele que as aguenta. Essas são chamadas as impurezas que devem ser abandonadas com a paciência." - (retirado de Sabbasava Sutta - acessoaoinsight)
Analisando o símile da sala, percebemos que não é possível sentirmos uma grande melhora com pouco tempo de prática. Podemos ter momentos de paz e tranquilidade, e devemos lembrar delas para estimular nossa prática, em vez de olharmos demais para o sofrimento que antes ignorávamos e que agora começamos a perceber - anime-se com a percepção de que há uma melhora. Mas a sala não ficará limpa apenas trazendo luz para ela - você precisará limpá-la. Só que para limpá-la, você precisará ilumina-la bem para saber como e por onde começar, e nesse processo muitos de nós ficam desesperados, porque começamos a ver mais sujeira do que imaginávamos - nesse momento que a Paciência deve entrar. Devemos compreender que a conscientização do sofrimento traz a sensação de que estamos piorando, mas na verdade isso é um avanço, porque estamos começando a iluminar a sala, a perceber algo que antes ignorávamos. Assim, o sofrimento não é algo que devemos evitar, mas algo que devemos analisar, estar abertos e não aversivos. Isso deve ser feito por um bom tempo, até que, com uma boa visão do cômodo, saberemos como limpá-lo e só assim o sofrimento será extinto.
Então, o primeiro passo é se conscientizar, trazer luz para sua mente. Quando a visão que você tiver sobre ela for menos obscurecida, você poderá saber melhor como começar a limpar. Isso ilustra perfeitamente bem o resumo da prática budista, que consiste basicamente em Virtude -> Concentração -> Sabedoria; apesar da prática ser cíclica, e não linear, essa é a melhor forma de mostrar como começar a praticar: primeiro você adota os preceitos para agir corretamente, isso melhora a meditação que traz sabedoria. Comparando, você desenvolve as habilidades e Virtudes necessárias, primeiramente, iluminar a sala, que envolve também o processo de Concentração. Quando a sala estiver bem iluminada, você perceberá por onde começar a limpar, e aqui os três conceitos analisados são colocados em prática. À medida que a sujeira for removida, a verdadeira Sabedoria nascerá.
- Mas isso é muito difícil de suportar! Eu percebo que devo continuar a praticar, mas estar consciente do sofrimento é desesperador! Como agir nessa situação?
Isso é o que chamamos de Aversão, e é um dos grandes apegos que nos deixam atados ao Samsara. Devemos lidar com essa sensação com Atenção Plena, para a qual um bom exemplo de como pôr em prática é a meditação: o que você faz quando senta em meditação? Você se senta e fica plenamente aberto a TUDO o que vier em sua mente, não é? Não importa se há uma sensação agradável ou desagradável no corpo, ou se você está pensando num trauma ou numa pessoa que você gosta, você deve deixar estas coisas soltas e se concentrar na respiração - ou seja, você não alimenta nem Aversão (não-querer) nem Cobiça (querer). Entretanto, esses apegos vão surgir outra vez em nossas mentes más condicionadas, e não é com pouco tempo de prática que irão parar de nascer. A atitude correta é que assim que percebermos o surgimento desses apegos, nós nos soltemos deles e os observemos de fora, sem resistir a eles (tentando expulsá-los) mas também sem alimentá-los - dessa forma vamos entender como evitar que eles venham novamente, mas essa análise deve ser desapegada, não aversiva.
É importante ressaltar aqui que muitas sensações ruins podem surgir nesse "observar de fora". Mara se utiliza de forças magnéticas muito fortes para tentar nos atar aos nossos apegos, e esse momento de resistência no qual imprimimos o Esforço Correto para não nos apegarmos nem a Aversão nem a Cobiça pode ser uma batalha ou algo bem desagradável. Eu, como exemplo, às vezes percebo um pensamento de Má Vontade surgir em minha mente quando alguém me pede um favor: "Ele pode muito bem fazer isso! Por que pedir a mim?" - o que tenho de fazer é imprimir o Esforço Correto assim que percebê-lo, e então paro de alimentá-lo. O que eu percebo quase sempre é que quando me desapego de alguns pensamentos como esse meu estômago começa a doer, como se minha mente demonstrasse seu descontentamento por eu não estar atendendo seus desejos. Bem nos avisou Buda que a mente é como um peixe se debatendo ao ser tirado da água quando não sucumbimos a todos os seus apegos - portanto, devemos ser firmes, resistir, aplicar o Esforço Correto para estarmos plenamente atentos e quando a atenção surgir, aplicar o Esforço outra vez para se desapegar.
Além disso, não desanime se um mesmo pensamento surgir, a prática é assim, emoções ruins vão surgir várias vezes, e você precisará fazer esse esforço para observá-las por mais desagradável que isso possa ser, seja no aspecto corporal ou mental. Seja diligente e não exija melhoras rápidas! Suas expectativas podem deixa-lo frustrado e fazê-lo desistir. Não pense "Agora esse pensamento não deve mais surgir...", "Por que esse pensamento de novo?", "A prática não está funcionando!" porque certas emoções só desaparecem depois de muito tempo de prática. Então, largue suas expectativas e apenas traga luz ao seu cômodo, independente do quão desagradável um pensamento possa ser. Apenas observe-o, e resista para que ele não te puxe! E muito cuidado com a ideia "Eu estou observando de forma desapegada, por que essa sensação não vai embora, então?", porque isso não é desapego, há uma Aversão implícita aí! É interessante que quando surge algo em nossa mente, temos que nos desapegar não só daquilo, mas de todos os desejos e vontades disparados pelo seu surgimento - incluindo Aversão, que não deve ser confundida com Desapego: descubra em si mesmo o Caminho do Meio.
- Eu tento parar de ter expectativas, mas elas vêm sem parar!
Você está tratando suas expectativas da mesma forma com a qual você lida com suas emoções e pensamentos - não é para ser aversivo, é para se desapegar. Quando surgir um pensamento desagradável, desapegue-se. Se surgir o pensamento "Droga, isso surgiu outra vez!", desapegue-se desse também. Se continuarem surgindo e latejando, continue se desapegando - seja firme na sua intenção e treinamento.
- Muitas vezes eu me sinto frustrado porque não percebo quando pensamentos me distraem, seja na meditação ou no dia a dia. Quando finalmente percebo que estou alimentando um sentimento inábil, vejo que passei muito tempo sem Atenção Plena e isso me desanima, não sinto avanço algum. O que eu devo fazer?
Isso é Impaciência outra vez - você premedita que com um mês de meditação você estará brilhantemente atento a várias coisas e que não se distrairá por mais do que um minuto até você descobrir que não é bem assim. Dê tempo e seja compassivo consigo mesmo. É como se você estivesse fazendo um mingau que requer 10 minutos para engrossar e, ao passar de 2 minutos, você ficasse furioso questionando consigo mesmo "Por que não engrossou ainda? Que droga, já deveria ter engrossado! Não vou mais ficar misturando, isso é desagradável" sendo que você sabe que precisa aguardar 10 minutos!
Para saber que a prática requer tempo nós, felizmente, temos a Sangha, em que monges e mestres têm nos alertado que devemos continuar a praticar sem expectativas, mas não damos ouvidos a isso. Além disso, não queremos continuar misturando o mingau porque é desagradável, ou seja, não queremos continuar a prática porque não suportamos observar emoções aversivas sem expulsá-las ou pensamentos atraentes sem agarrá-los, mas com isso escurecemos e não acendemos a sala - assim não surgirá Sabedoria.
Você pergunta "O que eu devo fazer?" e a única coisa que tenho a dizer é "Continue praticando". Dê tempo a si mesmo, porque a Atenção Plena não ficará refinada de um dia para o outro. Não negligencie a meditação. Assim, aos poucos, você não será mais tão distraído como antes. Só que não adiantará você praticar com essa Impaciência! Quando você perceber um pensamento te distraindo, independente de quanto tempo ele o tenha feito, você não deve pensar "Droga! Não acredito que me distraí durante tanto tempo!", desapegue-se dele imediatamente sem reclamar. A meditação é justamente para treinarmos essa Atenção Plena que, aos poucos, se torna automática - então, não há nada para se "fazer", continue praticando. Não vá jogar mais maisena no seu mingau devido a sua pressa, dê os dez minutos à receita e continue misturando, largue de ser negligente e impaciente. Não se incomode com o fato de a Atenção Plena demorar para perceber distrações, isso melhorará com o decorrer da prática. Se percebeu algo errado na mente, não fique medindo se demorou mais ou menos para isso, desapegue-se imediatamente e observe.
[Buda]: "Quando, monges, um monge tem essa conduta e essa permanência, se alguma vez, devido a um lapso na atenção plena, memórias e intenções ruins e prejudiciais conectadas com os grilhões surgirem nele, a atenção plena dele pode ser lenta no seu surgimento, mas ele rapidamente abandona, remove, elimina e aniquila aquilo. Como se um homem deixasse cair duas ou três gotas d'água sobre uma chapa de ferro aquecida durante todo um dia, a queda das gotas poderia ser lenta, mas elas se vaporizariam rapidamente e desapareceriam ao tocar a chapa de ferro. Da mesma forma, quando um monge tem essa conduta e essa permanência ... a atenção plena dele pode ser lenta no seu surgimento, mas ele rapidamente abandona, remove, elimina e aniquila aquilo." - (retirado de Dukkhadhamma Sutta - acessoaoinsight)
Logo, mesmo que sua Atenção Plena demore a perceber que você está distraído, não fique frustrado quando você enfim despertar. Em vez de se lamentar por ter demorado tanto, volte a se concentrar imediatamente - essa foi a instrução dada pelo Buda. Ao mesmo tempo, medite todos os dias e a Atenção Plena ficará mais eficaz praticamente de forma automática.
Acima eu disse que algumas vezes percebo um pensamento de Má Vontade, e isso me lembra que no começo eu também ficava muito frustrado porque esses sentimentos não paravam de surgir. Eu esperava, veja as expectativas outra vez, que com um pouco de Meditação de Amor Bondade e de Desapego minha mente já ficaria maravilhosamente gentil e bem condicionada, mas isso requer tempo. Então, em vez de ficar frustrado quando aquele pensamento surgia, comecei a aprender a me desapegar tanto dele quanto da aversão que logo vinha em seguida. Tente isso por si mesmo, pois sua frustração só te atrasará.
- Você diz que não devemos ser preguiçosos, mas eu sou bem o contrário disso. Por mais esforço que eu faça, minha mente continua a mesma, às vezes penso que até piorou! Estou fazendo algo errado?
Você deve estar sendo extremista, mas não se sinta mal por isso - mesmo o Buda caiu nesse dilema. Primeiro ele viveu uma vida onde ele tinha tudo o que desejava (Cobiça), e depois ele se dedicou a fazer tudo o que fosse de mais desagradável (Aversão), mas nenhum dos dois caminhos o levou à Paz. Isso porque desapegar-se é algo sutil, e não algo rígido, por isso precisamos encontrar um Caminho do Meio.
Você diz que está se esforçando, mas pode ser que esse esforço seja demasiado para a prática, fazendo o meio do Caminho tender ao extremo da Aversão. Não podemos nos esforçar demais para atingir o Nirvana, porque isso pode se tornar um Apego e, assim, um obstáculo. Então, você precisa se observar e experimentar novas formas de lidar com sua mente. Aqui também é necessário paciência outra vez, porque achar o Caminho do Meio não é um evento, mas um processo - na verdade você não "acha" o Caminho do Meio, mas sai e volta a ele variadas vezes, visto que eventualmente nos desviamos dele. Como a Monja Coen costuma retratar, nos desequilibramos para encontrar o equilíbrio.
Então, seja paciente e observe-se: será que você não está sendo rígido demais? Os pensamentos inábeis não são extintos apenas pela força de vontade, mas através do desapego, contentamento, compaixão e, por fim, sabedoria - nenhum caminho estrito ou rígido pode conduzi-lo a essas virtudes. Nem o querer, nem o não-querer, porque esse último ainda é querer o oposto do que está no presente momento, ou seja, ainda é querer e apego do mesmo jeito, percebe? Então, tanto Cobiça quanto Aversão não nos conduzem à Paz, tanto sucumbir aos nossos desejos quanto ir totalmente contra eles não funciona, encontre um meio aí não importa o quanto demore. Seja paciente consigo mesmo e equilibre-se quantas vezes for necessário, porque, bem como você disse, não podemos ser preguiçosos, mas também não devemos ser rígidos e dedicados ao extremo.
- O Buda disse que não devemos ter fé cega nele, mas uma fé fundamentada. Mas como fazer isso se temos de ficar praticando por algo que mal entendemos o que significa? Estamos fazendo as coisas às cegas, confiando totalmente nos ensinamentos de alguém sem estarmos seguros disso!
De fato o Buda queria que investigássemos sua doutrina, mas a questão é que tal investigação requer tempo. É como o mingau - se alguém fez a receita e gostou, ela pode te aconselhar que tente por você mesmo. Até que o doce fique pronto e engrosse corretamente, você estará cozinhando sem uma segurança convicta, porque ainda não viu o resultado. Mas você pode perceber, no decorrer do tempo, os ingredientes se dissolvendo e a mistura engrossando gradualmente, e com isso começar a perceber que quem te passou a receita deve estar certo - isso é o crescimento lento da fé fundamentada, porque você vê indícios de que o Buda estava certo.
Funciona mais ou menos assim com a prática inicial que, apesar de complicada, em pouco tempo nos faz sentir muitos momentos de paz também. Na meditação sentimos uma mente mais leve e satisfeita, ou às vezes nos surpreendemos com a fragilidade das nossas emoções ou das nossas ideias, e isso nos mostra como o que o Buda disse faz sentido. Se sempre nos recordarmos desses sentimentos, podemos nos encorajar a continuar a prática até que tenhamos uma convicção mais firme sobre o Dharma do Iluminado, e isso acontecerá quando uma boa parte da sujeira tiver sido tirada da sala.
Aliás, você não faz as coisas "às cegas", você tem a orientação do Buda. Você só não está ainda plenamente convicto se isso dará certo, porque sua sala não está limpa e com isso não surge sabedoria. Mas acendendo a luz e tirando um pouco de pó, você já tem acesso a vislumbres de Insight e isso pode te encorajar a continuar a limpeza até que tal fé melhor fundamentada possa se estabelecer e a verdadeira Sabedoria possa nascer.
- E se depois de tentar muito tempo alguma coisa, nada mudar?
Então, você deve tentar outra coisa. O Budismo é uma verdadeira ciência da mente e, como qualquer cientista, você precisa fazer várias tentativas e estar aberto aos erros e novas possibilidades. Logo, não desanime se algo não funcionar, improvise e tente de outra forma. Além disso, em toda a sua prática vá se conscientizando de como você está treinando, pode ser que um pequeno empecilho colocado por você esteja impedindo o avanço.
Mas cuidado! Não tente um caminho durante uma semana e na próxima já ir testando outra maneira, analise cada possibilidade de prática pacientemente. Tentar várias vezes faz parte do Budismo, porque se colocar no Caminho do Meio requer várias tentativas - mas não vá mudando essas tentativas de uma hora para a outra, dedique-se a cada uma por um bom tempo para estar seguro de que não é apenas paciência que está faltando, mas algo mais em sua metodologia.
- Eu tenho observado meus pensamentos e sentimentos de forma desapegada a um bom tempo, mas sinto que preciso avançar mais um pouco na minha prática. Isso é errado ou há algo mais a ser feito?
Depois de algum tempo de prática, nossa visão acerca das nossas emoções ficará mais refinada, o que podemos retratar como sendo que a sala estará bem iluminada. Com isso, poderemos ver melhor como limpar a sala - então, a limpeza mesmo ainda não começou. Isso porque apenas observar nossos pensamentos não os extinguirão - apesar de desaparecerem, eles retornam novamente. É por isso que o Buda pediu que realizássemos os 4 Esforços Corretos, isso é:
1- Gerar desejo (não é Tanha, a sede que nos prende no Samsara) para que não surjam estados prejudiciais que ainda não nasceram.
2- Gerar desejo para expulsar (desapegar sem aversão) estados prejudiciais que já nasceram.
3- Gerar desejo para que surjam estados benéficos que ainda não nasceram.
4- Gerar desejo para estimular estados benéficos que já nasceram.
Então, para que os pensamentos inábeis sejam abandonados, há mais a ser feito do que apenas observá-los de forma desapegada - é preciso investigar algo que faça com que tais sensações desapareçam e não surjam novamente, o que também requer tempo. Primeiro porque não somos capazes de perceber o que fazer no começo, porque com uma sala mal iluminada ainda não sabemos como começar a limpeza - por isso que, no início da prática, apenas observamos nossos sentimentos sem tentar evitar seu surgimento, precisamos conhece-los antes de aplicar o antídoto. Segundo, porque não é depois de algumas aplicações de tal "remédio" que as emoções já serão extintas - é necessária a dosagem durante um tempo, ou seja, é preciso se dedicar a limpar a sala tanto tempo quanto você tiver se empenhado a iluminá-la. Agora, diferenciar quando sua sala já está iluminada ou não, quando você consegue ter alguma sugestão do que pode vir a enfraquecer um estado ou não depende de sua sensibilidade, paciência e intuição.
Para nos ajudar, o Buda deu várias dicas. Ele disse que diante do surgimento da raiva devemos alimentar Amor Bondade, ou que diante da cobiça devemos enxergar os aspectos repulsivos das coisas, entre outros conselhos. Devemos pôr isso em prática para ver se funciona e podemos acabar descobrindo vários outros antídotos aquém o "simples ato de desapegar-se que, por si só, não extingue estados prejudiciais".
- Mas estimular pensamentos contrários aos pensamentos inábeis não seria ainda uma Aversão, e assim um apego? Pelo que eu li sobre o Nirvana, ele é algo Incondicionado, o Desapego supremo - por que precisamos nos apegar a outros sentimentos? Por que precisamos dar condições para o surgimento de Boa Vontade, Compaixão e Contentamento se o Nirvana é o fim das condições?
Uma análise interessante, mas impaciente outra vez. Os ensinamentos de Buda são muito profundos e eles devem ser praticados em etapas - você não conseguirá entender a etapa 3 se não tiver realizado a 2. O que você disse está correto: o objetivo é o Incondicionado, algo que está além das condições seja do surgimento de pensamentos hábeis ou inábeis. A questão é que para chegar ao Incondicionado, nós usamos o Condicionado. Para transcender o mundo, nós começamos nele. É por isso que o símile da flor de Lótus é tão importante: ela brota do lodo até florescer acima da água, totalmente limpa e resplandecente.
O problema é que não é qualquer estado condicionado que é fértil ao surgimento da sabedoria que conduz ao Incondicionado. Com uma mente raivosa, invejosa ou insatisfeita a Sabedoria não pode surgir; mas se estivermos contentes, satisfeitos e alegres estaremos mais preparados para perceber o sofrimento e aceita-lo. Então, de fato, recondicionar a mente para que surjam pensamentos mais benéficos e hábeis não é o final do caminho, mas é o meio pelo qual chegamos ao Incondicionado. Não há como sair do mal condicionamento ao Incondicionado, primeiro temos que condicionar nossas mentes de forma benéfica e só assim chegaremos ao Nirvana, como bem colocado por um monge theravada logo abaixo:
[Ajahn Brahmavamso]: "Porque é que quando alguém diz alguma coisa para irritá-lo, só isso é lembrado? Nunca nos lembramos de todas as gentilezas que nos foram feitas, todas as palavras gentis que nos foram ditas. Eu sou o oposto. Esqueço todas as coisas desagradáveis que as pessoas disseram a meu respeito e só me lembro das coisas boas. Qual dos dois é mais verdadeiro? Ambos são igualmente errados. Mas eu escolho aquele que é errado, porém feliz. É interessante que esse tipo de condicionamento - ver o lado positivo, ver a felicidade, o positivo em você mesmo, a felicidade na vida, a felicidade nas outras pessoas - também é o caminho que conduz ao descondicionamento e ao incondicionado, a ver as coisas com clareza."  - (retirado de A Realidade Condicionada - acessoaoinsight)
No final das contas, o Caminho requer sofrer, aprender a ser feliz e depois abandonar ambos. Como disse Ajahn Chah, com o tempo você não deve se misturar nem com Felicidade nem com Sofrimento, de preferência você deve compreendê-los. Com isso, ambos são abandonados e Nirvana é atingido, visto que o Nirvana é algo que está além tanto de Sukha (Satisfatoriedade) quanto de Dukkha (Insatisfatoriedade). Entretanto, para chegar lá, primeiro temos que passar por Sukha e, para isso, não devemos ser aversivos a Dukkha. Quando conseguirmos nos desapegar desse, deixando-o vir para que o observemos, conseguiremos desenvolver Contentamento e Satisfação. Com esse bom condicionamento, podemos chegar à transcendência de todas as condições, ao Incondicionado, ao Nirvana. Então, não tente pular do mal condicionamento ao Incondicionado.
Por fim, não seja aversivo ao Sofrimento e não tente expulsá-lo pela força de vontade, essa Aversão só atrasará sua prática. O caminho mais curto é o da Paciência: aceite ambos felicidade e sofrimento sem se misturar a eles, apenas observe. Não agarre as coisas atraentes, e não tente se livrar das coisas aversivas, isso é Apego e, consequentemente, Sofrimento. Observe pacientemente, pois somente depois de muita análise é que você saberá o meio certo de se condicionar beneficamente. Só depois que a sua sala estiver bem iluminada você saberá como limpá-la, mas não fique com medo da sujeira que for sendo revelada: suporte esse desespero e medo e continue iluminando, até que você perceba claramente como começar a limpar. E, mais uma vez: isso requer tempo. Largue suas expectativas e continue praticando, sempre se colocando no Caminho do Meio - não tente praticar anos incorretamente, nem apenas alguns dias corretamente. Seja sincero, paciente e diligente.
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