Budismo - Sangha Online
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 Sobre este Fórum: Dúvidas sobre o Budismo

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Administrador

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Mensagem Sab 29 Jun 2013 - 19:10

Dúvidas sobre o Budismo
Este Fórum é livre para que você tire suas dúvidas - crie tópicos para construir debates, faça perguntas, compartilhe conosco seus questionamentos e Suttas ou textos que você não entendeu. Esclareça suas perguntas acerca dessa Religião que pode ser difícil de compreender!
De acordo com o Buda no Brahmayacana Sutta: "Este Dharma (palavra com sentido de fenômeno, doutrina e compreensão) que eu alcancei é profundo, difícil de ver e difícil de compreender, pacífico e sublime, que não pode ser alcançado através do mero raciocínio, ele é sutil, para ser experimentado pelos sábios".
Gostaria de frisar que a mensagem passada pelo Buda é, de fato, profunda. Não basta saber toda sua Teoria Filosófica, mas também não é certo crer nela com Fé Cega.
Para compreender como o Buda encontrou o fim do sofrimento, devemos equilibrar ambas atitudes: o estudo e a prática. Somente quando o que se aprendeu em Teoria é colocado em prática que nossa mente é desenvolvida e a Paz é estabelecida!
No decorrer da prática, o Buda é melhor compreendido - não espere entende-lo depois de passar alguns meses meditando, a prática é gradual.
Então, para aqueles que vierem tirar dúvidas sobre o Budismo, já aviso: todos nós podemos apenas apontar o que o Buda disse, mas certas coisas você precisará ver por si mesmo para compreender melhor.
Como se diz no Zen-Budismo, as palavras são como um dedo que apontam para a Lua. Assim, não se apegue ao dedo! Pare de ficar focado nele. Olhe para onde ele aponta e tente trilhar o caminho até a Lua, que simboliza a Paz do Nirvana, por si mesmo.
De qualquer forma, não se acanhem - perguntem o que estiver lhes aborrecendo ou incomodando! Todos podemos tentar responder de acordo com nossos conhecimentos e prática e, naturalmente, ninguém saberá tudo. Portanto, é viável que estejamos abertos ao diálogo e discussão.
Monges em leitura.
Caso você prefira enviar uma mensagem particular ao Administrador ou a um usuário específico do Fórum, você pode fazê-lo por meio das Mensagens Privadas. Aprenda como enviá-las em Como usar MP - Mensagem Privada. Entretanto, friso que postando sua dúvida num Tópico público, provavelmente você será respondido por mais pessoas e, portanto, mais rapidamente.
A resposta para algumas das suas dúvidas podem já estar disponíveis em nosso Site! Para isso, dê uma olhada nos tópicos deste Fórum que contém algumas Dúvidas Frequentes abaixo desse tópico.
Se você quiser construir um tópico a parte deste para falar exclusivamente de sua dúvida, sinta-se livre para fazê-lo nesse Fórum. Algumas dúvidas postadas nesse Tópicos podem ser transformadas num tópico a parte, sendo que o autor será devidamente avisado.


Última edição por Administrador em Sab 31 Ago 2013 - 10:47, editado 12 vez(es)
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Leo

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Mensagem Sex 12 Jul 2013 - 18:28

Boa noite. eu vim aqui porque eu li uma coisa num site de zen budismo e fiquei meio confuso, olhe:

Como é que se pratica a meditação? Meditando além do pensar, mas também além do não-pensar. "Pensar além do pensar e do não-pensar" é outra afirmação desconfortável. Não se diz para pensar nisso ou naquilo, ou para não pensar, mas "Pense além do pensar e do não-pensar"

como assim? esse negocio me confundiu um pouco. como que se pensa além do pensar e do não-pensar? Surpreso 
 
o site: http://www.daissen.org.br/hp/index.php
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Administrador

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Mensagem Sex 12 Jul 2013 - 19:31

Leo escreveu:
Boa noite. eu vim aqui porque eu li uma coisa num site de zen budismo e fiquei meio confuso, olhe:

Como é que se pratica a meditação? Meditando além do pensar, mas também além do não-pensar. "Pensar além do pensar e do não-pensar" é outra afirmação desconfortável. Não se diz para pensar nisso ou naquilo, ou para não pensar, mas "Pense além do pensar e do não-pensar"

como assim? esse negocio me confundiu um pouco. como que se pensa além do pensar e do não-pensar? Surpreso  
 
o site: http://www.daissen.org.br/hp/index.php
Essa é uma frase que requer mais do que uma singela interpretação de textos, não é? Rindo 
Normal se confundir, isso mostra como a prática da Meditação é sutil e, num certo aspecto, um pouco complicada.
Veja bem: na Meditação devemos seguir o Caminho do Meio, certo?
Nesse Caminho do Meio, devemos evitar a Cobiça (querer) e Aversão (não-querer). Como isso aparece na meditação:
Cobiça, querer pensar: você quer pensar em alguma coisa que você quer, ou no que você poderia fazer, ou no que você acha que a realidade é, mas você não pode ficar alimentando pensamentos durante a Meditação, você deve buscar o silêncio, e não ficar alimentando mais apegos.
Entretanto, ao mesmo tempo, você não pode querer expulsar seus pensamentos. Isso é Aversão, não-querer pensar: não querer seus pensamentos. Se, durante a meditação, nos esforçarmos para expulsar nossos pensamentos, a mente ao invés de silenciar ficará agitada e rebelde, então, você não pode brigar com ela.
O Buda seguiu o Caminho do Meio abandonando o extremo que sucumbia à sensualidade e aos seus desejos, mas também largando o outro extremo que ia totalmente contra os seus desejos e sua natureza, tentando contrariar o modo de funcionar do seu corpo. Ambas as formas não levam à Paz: nem a preguiça, nem a tensão.
Então, você não deve alimentar sua mente com pensamentos, você deve deixa-la silenciar sozinha. É da natureza da mente pensar, você pode perceber que os pensamentos surgem sozinhos. Mas, se você não tentar acrescentar novas ideias e, ao mesmo tempo, não tentar expulsar seus pensamentos, só assim ela irá silenciar.
Então, pense além do pensar e do não-pensar. Não pense, mas também não não-pense. Não acrescente pensamentos, mas não tente ficar sem pensar, sem pensamentos. Pense além disso: apenas observe.
Conseguiu entender? ^-^
Aliás, esse site do Monge Gensho é muito bom, aproveite-o bem! E saiba que no Zen Budismo é comum haver esses conselhos paradoxais, às vezes aparentemente absurdos Sorridente 
Mas representam, na prática, algo muito importante para alcançar a Paz. Agradecimento 


Última edição por Administrador em Qua 31 Jul 2013 - 14:43, editado 2 vez(es)
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Leo

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Mensagens : 25

Mensagem Sab 13 Jul 2013 - 17:17

agora eu entendi kkkkk, eu também compliquei um pouco, né? kk
agora ficou mais simples de entender, dica basica de meditação! valeu lol

_________________________________________________________________________________________________
    “O tempo rapidamente se esvai e a oportunidade se perde. Cada um de nós deve
      se esforçar para acordar, para despertar. Não desperdice a sua vida.”

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illcircus

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Mensagens : 3

Mensagem Qua 7 Jan 2015 - 14:00

Olá, pessoal! Ultimamente, tenho lido bastante a respeito do Budismo e cada vez mais me aproximo, mas até hoje tenho dúvidas quanto a trechos de um dos primeiros livros que escolhi, que foi uma biografia de Buda escrita por Sophie Royer (confesso que não gostei do trabalho dela):

"Da mesma maneira, ó Ananda, que a doença chamada de alforra surge em uma plantação de arroz em plena prosperidade – e então a prosperidade da plantação não dura muito tempo –, da mesma maneira, ó Ananda, quando em uma doutrina e em uma ordem as mulheres são autorizadas a renunciar ao mundo e a levar a vida de errante, então a vida santa não prospera por muito tempo. Se, ó Ananda, na doutrina e na ordem que o Tathagata fundou não tivesse sido concedida a possibilidade de as mulheres abandonarem o lar para levar vida de errante, a vida santa, ó Ananda, permaneceria em observância durante muito tempo: a doutrina pura seria mantida durante mil anos. Mas como, ó Ananda, na doutrina e na ordem que o Perfeito fundou, as mulheres renunciam ao mundo e adotam a vida de errante, a partir de agora, ó Ananda, a vida santa não vai mais permanecer muito tempo em observância: a doutrina da verdade agora não vai durar mais do que quinhentos anos".

E também:

"– Senhor, como devo me comportar perante as mulheres?
– Não tenha contato com elas.
– Mas, Tathagata, como poderei evitá-las?
– Ananda, se você encontrar uma mulher, evite qualquer conversa.
– E se ela me dirigir a palavra?
– Neste caso, você deve sempre tomar o cuidado de ser extremamente vigilante e não baixar a guarda".


Quanto a primeira citação, não sei se interpretei certo, já a segunda me parece bem objetiva. Alguém poderia me explicar melhor o relacionamento do Budismo com as mulheres?

Obrigada pela atenção Grato
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Convidado

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Mensagem Qui 8 Jan 2015 - 12:49

Queria perguntar se após a morte, o ser pode permanecer em estado de erraticidade ou se necessariamente e imediatamente já renasce em algum mundo. E outra pergunta é se podemos escolher, ponderar, administrar nossos renascimentos ou se eles acontecem independentes de nossa escolha como que fatalmente. Tenho estas duas perguntas.


Última edição por José P. S. Filho em Qui 11 Jun 2015 - 10:33, editado 1 vez(es)
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Mente Purificada

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Mensagem Qui 8 Jan 2015 - 21:11

José P. S. Filho escreveu:
Eu queria perguntar se após a morte, o ser pode permanecer em estado de erraticidade ou se necessariamente e imediatamente já renasce em algum mundo.

Isso depende da tradição. A tradição do Budismo Tibetano acredita que o ser humano passa pelos bardos.

Na Wikipédia:

Bardo (em sânscrito: Antarabava) é, para o budismo tibetano, um estado de existência intermediária entre a morte e o renascimento.
São quatro os principais bardos:

  • Bardo do local de nascimento
  • Bardo do momento da morte
  • Bardo da verdadeira natureza dos fenômenos
  • Bardo do renascimento ou do vir a ser

O bardo do local do nascimento contém, ainda, mais dois bardos:

  • Bardo dos sonhos
  • Bardo do estado de meditação

Totalizando, assim, seis bardos.

Uma obra fundamental do budismo tibetano é o Bardo Todhol (literalmente, "libertação do estado intermediário"), conhecido também como "Livro Tibetano dos Mortos". É um texto sagrado que deve ser lido para instruir a consciência de modo que ela saiba como se dirigir à iluminação no momento da morte. Trata-se da principal prática budista tibetana, ou seja, a transferência da consciência (phowa).

Aqui acaba o texto da Wikipédia.

O Budismo Theravada não acredita nos bardos. O seguinte texto foi retirado de 'Plena atenção à morte' do monge Theravada Bhante Henepola Gunaratana.

Pergunta: Após a morte do corpo, o que sobrevive para o renascimento? Que nome tem? Onde fica? Quem decide onde vai renascer?

Bhante G: Não é uma questão de quem decide, mas o processo em si dará resultados. Por exemplo, se você atira uma pedra para cima, quem decide que ela deve cair? A pedra vai até certo ponto dependendo da energia aplicada, e cairá com a exaustão da energia sem que ninguém predetermine aonde ela vai. É só como uma lei física, ação gera reação, quem determina a reação?

Com relação a um lugar em que o ser ficaria entre a morte e seu renascimento, há tradições budistas que falam de um período intermediário, referido como bardo.

A crença no bardo coloca que, após a morte, o ser fica vagando por aí, aguardando a hora de renascer. Se nos fosse dada a escolha de onde renascer, ninguém iria para um lugar errado. Todo mundo nasceria no melhor lugar do mundo. Não é assim, veja os lugares miseráveis, os mendigos, as pessoas deformadas, isso só no mundo humano, nascimentos em todo tipo de situação, rico ou pobre, por toda parte, inteligente ou não, e isso tudo acontece imediatamente após morrer, a vida recomeça em outro lugar qualquer.

O Buda disse:

“Quando a morte se aproxima,
Se você não se preparou,
Não espere um período intermediário,
Porque não há tal coisa.
Você renascerá imediatamente”.

Aqui termina o ensinamento do Bhante Henepola Gunaratana.

José P. S. Filho escreveu:
E outra pergunta é se podemos escolher, ponderar, administrar nossos renascimentos ou se eles acontecem independentes de nossa escolha como que fatalmente.

Acredito que o Bhante Henepola Gunaratana já respondeu a sua pergunta, mesmo assim, gostaria de aprofundar um pouco mais no assunto.

Dentro do Budismo existe o khamma ou carma. Khamma significa ação. Todos os dhamma (fenômenos) são impermanentes (anicca) e não-eu (anatta). Nós não temos controle sobre os fenômenos, ou seja, tudo é incerto. É por isso que devemos praticar boas ações, devemos nos esforçar para acumular bom khamma. A prática de virtude, concentração e sabedoria nos garante um renascimento melhor.

Se uma pessoa pratica ações más, essa pessoa provavelmente terá um renascimento ruim, se praticar boas ações terá um renascimento bom.

Temos a escolha de praticar boas ações para garantir um bom renascimento, mas não podemos controlar nossos renascimentos. Não há como prever o futuro, ele é incerto, está fora de nossa capacidade.

Uma pessoa que acumulou muitos méritos e que atinge o estado de Buda não mais renascerá (está livre do samsara, o ciclo de renascimentos e mortes), mesmo que queira, pois isso independe de suas vontades (eu penso assim).

Espero ter ajudado em algo.
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Mente Purificada

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Mensagem Qui 8 Jan 2015 - 21:27

illcircus escreveu:
Alguém poderia me explicar melhor o relacionamento do Budismo com as mulheres?

Essa pergunta é interessante e não sei ao certo como responder. Creio que essa pergunta depende da tradição de Budismo que você segue (Zen, Tibetano, Theravada) e do fato de ser um homem comum ou um monge.

Encontrei um texto do Ajaan Brahmavamso (da tradição Theravada), nele é discutido esses assunto com base nas regras monásticas:

Título do texto: Monges e Mulheres. Monjas e Homens


Uma das importantes regras do Vinaya, para os monges bem como as monjas Budistas, é a proibição de um monge estar a sós com mulheres, e uma monja estar a sós com homens. Esta não é apenas uma regra para os monges e monjas mais rigorosos, mas uma regra que o Buda definiu como obrigatória para todos os monges e monjas. Visto que esta é uma regra que muitas vezes vem à tona, vou explicá-la em detalhe neste artigo sobre o Vinaya.

Na introdução de uma das regras encontrada no Vinaya Pitaka (Aniyata 1), é mencionada a seguinte história:

"Certa ocasião o Abençoado estava em Savatthi, no Bosque de Jeta, no Parque de Anathapindika. Então o Venerável Udayin foi até aquela jovem (a filha recém-casada de um dos patrocinadores do Venerável Udayin) e tendo se aproximado dela, sentou-se junto daquela jovem, um homem e uma mulher, em um lugar oculto, em um assento isolado, conveniente, conversando na hora certa, falando sobre o Dhamma na hora certa ... Visakha (a famosa discípula leiga) viu o Venerável Udayin sentado junto daquela jovem, um homem e uma mulher, em um lugar oculto, em um assento isolado, conveniente. Vendo aquilo, ela disse para o Venerável Udayin: 'Isso não é apropriado, venerável senhor, não é adequado que o mestre sente-se junto com as mulheres, um homem e uma mulher, em um lugar oculto, em um assento isolado, conveniente. Embora o mestre não tenha nenhum desejo por aquilo (relação sexual), as pessoas incrédulas são difíceis de serem convencidas.' O Venerável Udayin não deu atenção a Visakha ... Visakha comentou o assunto com os monges ... Os monges ficaram contrariados, aborrecidos e irritados e relataram o assunto para o Abençoado ... o Abençoado repreendeu o Venerável Udayin: 'Como pode você, homem tolo, sentar-se junto com as mulheres, um homem e uma mulher, em um lugar oculto, em um assento isolado, conveniente?'"

... ( O Buda então estabeleceu uma regra explicando ... )

'Um lugar oculto' significa oculto do olho, oculto do ouvido. Oculto do olho significa que o espectador será incapaz de ver se o monge está piscando o olho, levantando a sobrancelha, movendo a cabeça. Oculto do ouvido significa que o espectador é incapaz de ouvir o que é dito em um tom de voz normal. 'Um assento isolado' significa que é separado por uma parede, ou por uma porta fechada, ou por uma tela, ou por um arbusto grande, ou por uma coluna, ou por um saco, ou que seja ocultado por qualquer coisa de outro tipo. 'Conveniente' significa ser possível realizar um ato sexual".

A regra seguinte, Aniyata 2, é semelhante à primeira, que acabei de descrever, com a única diferença que desta vez o Venerável Udayin sentou-se com a mesma jovem, só os dois, em um lugar oculto (oculto do olho, oculto do ouvido), que não era um assento isolado (por uma parede etc.), nem um lugar conveniente (para o ato sexual). Mais uma vez quando Visakha avistou o Venerável Udayin e a jovem a sós, ela repreendeu o monge:

"Isso não é apropriado, venerável senhor, não é adequado que o mestre sente-se junto com as mulheres, um homem e uma mulher, em um lugar oculto. Embora o mestre não tenha nenhum desejo por aquilo (relação sexual), as pessoas incrédulas são difíceis de serem convencidas."

Novamente o Venerável Udayin não deu atenção a Visakha, assim ela comentou o assunto com os monges que relataram o assunto para o Buda. O Buda repreendeu o Venerável Udayin e condenou esse tipo de comportamento através da criação de uma outra regra.

As citações acima, diretamente do Vinaya Pitaka, mostram o perigo de um monge estar a sós com mulheres, especialmente dentro de um quarto, em um carro ou edifício. Estas regras foram repetidas no Vinaya das monjas, proibindo uma monja de estar a sós com homens, por razões semelhantes. Na sociedade de hoje, onde as alegações de abuso sexual são abundantes, e com freqüência são a palavra de uma pessoa contra a palavra de outra, manter essas regras importantes é mais do que apenas uma proteção contra a possibilidade de abuso, mas também uma proteção contra as suspeitas espalhadas pelos maliciosos. Suspeitas, mesmo que falsas, são muito difíceis de refutar. Como disse a sábia leiga Visakha: "Embora o mestre não tenha nenhum desejo por aquilo (relação sexual), as pessoas incrédulas são difíceis de serem convencidas."

Conhecendo agora esta regra, que todos possamos ajudar os monges e monjas Budistas a manterem os seus preceitos corretamente e, assim, evitar alegações que prejudicam a todos. Por favor, evite ficar a sós com um monge, se você é uma mulher, e se você é um homem, evite ficar a sós com uma monja. Muito obrigado.


Fim do texto.
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Convidado

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Mensagem Sex 9 Jan 2015 - 19:20

Mente Purificada escreveu:
Uma pessoa que acumulou muitos méritos e que atinge o estado de Buda não mais renascerá (está livre do samsara, o ciclo de renascimentos e mortes), mesmo que queira, pois isso independe de suas vontades (eu penso assim). 

Me indicaram o Saleyyaka Sutta (http://www.acessoaoinsight.net/sutta/MN41.php) para ler. Lá o Buddha diz assim: 

“Se, chefes de família, alguém que mantenha a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra, desejasse: ‘Ah, que na dissolução do corpo, após a morte, eu possa renascer na companhia de brâmanes prósperos! ... na companhia de chefes de família prósperos!’ é possível que na dissolução do corpo, após a morte, ele renasça na companhia de chefes de família prósperos. Por que isso? Porque ele mantém a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra.

Se, chefes de família, alguém que mantenha a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra, desejasse: ‘Ah, que na dissolução do corpo, após a morte, eu possa renascer na companhia dos devas dos quatro grandes reis! ... na companhia dos devas do trinta e três,(Tavatimsa)! ... dos devas de Yama! ... dos devas de Tusita! ... dos devas que se deliciam com a criação! ... dos devas que exercem poder sobre a criação de outros! ... dos devas do cortejo de brahma! ... dos devas da radiância! ... dos devas da radiância limitada! .... dos devas da radiância imensurável! ... dos devas que emanam radiância! ... dos devas da glória! ... dos devas da glória limitada! ... dos devas da glória imensurável! ... dos devas da glória refulgente! ... dos devas do grande fruto! ... dos devas de aviha! ... dos devas de atappa! ... dos devas de sudassa! ... dos devas de sudassi! ... dos devas de akanittha! ... dos devas da base do espaço infinito! ... dos devas da base da consciência infinita! ... dos devas da base do nada! ... dos devas da base da nem percepção, nem não percepção!’ é possível que na dissolução do corpo, após a morte, ele renasça na companhia dos devas da base da nem percepção, nem não percepção. Por que isso? Porque ele mantém a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra".


No caso, lendo estas palavras do Abençoado, não daria a entender que existe uma possibilidade de escolha por aqueles que ele classificou como aqueles que "mantém a conduta de acordo com o Dhamma, conduta íntegra"? Que poderiam escolher o direcionamento do seu renascimento se quisessem? Outra pergunta que acredito resumir bem o que talvez eu esteja querendo perguntar: uma pessoa, por exemplo, que alcançou o terceiro ou o quarto jhana e que possua conduta íntegra em acordo com o Dhamma e que, após a morte, possui um karma conduzindo para um renascimento superior poderia, se quisesse, renascer em uma esfera bem mais inferior? 


Última edição por José P. S. Filho em Qui 11 Jun 2015 - 10:37, editado 2 vez(es)
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Mente Purificada

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Mensagem Sab 10 Jan 2015 - 14:42

José P. S. Filho escreveu:
Isso parece reforçar a a compreensão de que Nirvana realmente liberta a pessoa do ciclo de renascimentos
Olá! Acho complicado explicar a questão de Nirvana (Nibbana). Esse é um tema que eu não domino muito. Não sei se você já leu o texto A descrição de Arahants e Ariyas para Nirvana. Nele, você poderá encontrar mais informações sobre esse assunto.


Última edição por Mente Purificada em Dom 7 Jun 2015 - 12:46, editado 1 vez(es)
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Mensagem Dom 11 Jan 2015 - 15:06

Olá!  Feliz
José, eu vi sua pergunta e quis entrar para responder, porque é muito complicado tratar sobre isso que você está tratando mesmo...
Não depende de nenhum EU escolher onde ele vai renascer ou como vai renascer. Se quiser ler o Mahakhammavibhanga Sutta, vai ver que o funcionamento de Karma é muito mais complexo do que parece. Nesse Sutta o Buddha fala que mesmo pessoas que desenvolvem grande poder espiritual, sendo capaz de ver o que uma pessoa fez em vida e como foi seu renascimento futuro, podem acabar desenvolvendo entendimentos incorretos quando observam os vários casos que ocorrem quando uma pessoa morre e renasce, porque a pessoa vê indivíduos virtuosos renascendo em estados felizes, e indivíduos virtuosos renascendo em estados INfelizes! Também vê indivíduos viciosos renascendo em estados INfelizes, e indivíduos viciosos renascendo em estados felizes! Como?
“Ananda, [3] existem quatro tipos de pessoas que podem ser encontradas no mundo. Quais quatro? Aqui uma pessoa mata seres vivos, toma aquilo que não é dado, tem conduta imprópria em relação aos prazeres sensuais, diz mentiras, fala com malícia, fala de forma grosseira, fala de forma frívola; é cobiçosa, possui a mente cheia de má vontade e tem entendimento incorreto. Na dissolução do corpo após a morte, ela renasce num estado de privação, num destino infeliz, nos reinos inferiores, até mesmo no inferno.
“Mas, aqui uma pessoa mata seres vivos ... e tem entendimento incorreto. Na dissolução do corpo após a morte, ela renasce em um destino feliz, até mesmo no paraíso.
“Aqui uma pessoa se abstém de matar seres vivos, de tomar aquilo que não é dado, da conduta imprópria em relação aos prazeres sensuais, de dizer mentiras, de falar com malícia, de falar de forma grosseira, de falar de forma frívola; ela não é cobiçosa, ela não possui a mente cheia de má vontade e tem entendimento correto. Na dissolução do corpo após a morte, ela renasce em um destino feliz, até mesmo no paraíso.
“Mas, aqui uma pessoa se abstém de matar seres vivos ... e tem entendimento correto. Na dissolução do corpo após a morte, ela renasce num estado de privação, num destino infeliz, nos reinos inferiores, até mesmo no inferno.

É o funcionamento de Karma. Às vezes o que você fez numa vida só vai frutificar 2 vidas depois, ou frutifica no momento em seguida a sua ação, ou ainda nessa vida, ou talvez nunca encontre as condições adequadas para frutificar! Como isso vai funcionar não depende de nós - depende da natureza do funcionamento de Karma.
Agora, é claro - o que é Karma? INTENÇÃO. Tudo o que tem alguma Intenção gera Karma - Pensamento Intencional, Ação Intencional ou Fala Intencional. Assim é que podemos interferir no funcionamento de Karma - e até em nossos Renascimentos - e gerar Karma que leva ao fim de Karma - Nirvana. Mesmo nossa intenção no momento da morte pode ser importante. Pense em dois leigos budistas. Um, no momento da morte, pode pensar: "Que todo meu bom karma frutifique para que eu tenha um bom renascimento entre os Devas.", outro, pode pensar "Que eu não renasça como um Deva, pois os Devas usufruem de muito prazer e, com isso, posso correr o risco de esquecer do sofrimento do Samsara e não praticar o Dhamma. Por isso, que eu possa renascer num lugar onde o Budismo prospere, onde seja mais fácil eu praticar o Dhamma.". Esses pensamentos geram Karma, não é? Portanto, podem interferir, eu acredito sim. Não acho que seja simplesmente escolher - acho que não é sempre assim, mas qualquer pensamento que você tiver, gera Karma e interfere no ciclo. Dependendo da Sabedoria acumulada de cada um, é possível que a pessoa possa interferir dessa maneira sim, eu penso. Como eu disse, o pensamento no momento da morte é importante: 

“Então, Ananda, [5quanto à pessoa que matava seres vivos ... e que tinha entendimento incorreto e que na dissolução do corpo, após a morte, renasceu num estado de privação ... até mesmo no inferno: ou antes ela cometeu uma ação prejudicial para ser sentida como dolorosa ou depois ela cometeu uma ação prejudicial para ser sentida como dolorosa ou no momento da morte ela adquiriu e assumiu o entendimento incorreto. [6Por causa disso, na dissolução do corpo, após a morte, ela renasceu num estado de privação ... até mesmo no inferno

Aí podemos pensar em vários contemplativos que alegam que podem prever seus futuros nascimentos, ou podem decidir aonde vão renascer... Existem vários ensinamentos, mas a meu ver, se preocupar com todas essas especulações é coisa demais para pensar!  Rindo
O Buddha ensinou simplesmente isso como base: até que atinjamos o estado de Sotapañña, em que tenhamos mexido na rede da Originação Dependente a tal ponto que tenhamos tido a visão de Nibbana (sem tê-lo realizado) que nos liberte definitivamente do renascimento em reinos inferiores e tenha colocado em movimento os fenômenos da Lei de Causa e Efeito que nos levarão a perceber Nibbana de uma vez por todas, é incerto qual vai ser nosso próximo nascimento. Mesmo que tenhamos uma vida virtuosa, podemos renascer em estados de privação, porque existe muito Karma potencial do passado que pode não ter frutificado ainda.

E, tendo atingido o estado de Sotapañña, não cabe ao indivíduo dizer se quer se iluminar ou não. Nós regamos a semente e, se regarmos da forma adequada, chega um momento em que seu florescimento é INEVITÁVEL. Esse processo é Anatta, não-eu. Então, nosso papel é simplesmente regar a semente. Deixar o mal de lado e cultivar o bem. Se há felicidade na mente, cultive o Desapego. Se há sofrimento na mente, cultive o Desapego. Ambos felicidade e sofrimento vão passar. Como o Buddha diz no Accayika Sutta, assim como um agricultor, nossa tarefa é simplesmente fazer o trabalho - a Iluminação virá por si só, não podemos prever quando isso vai ocorrer.
Existem relatos que dizem que é possível prever certas coisas, mas isso não é necessário para treinar Virtude, Concentração e Sabedoria. Isso já é bom o suficiente. Essa é uma ótima resposta para o Desejo. Ele quer saber isso, quer conseguir aquilo, quer ser possuidor disso, quer se colocar como aquele que fez isso... Mas podemos dizer: "Apenas Virtude, Concentração e Sabedoria. Isso é bom o suficiente."  Feliz
Por isso que quando os discípulos de Ajahn Chah pediam para ele ler a mão deles para ler sua sorte, ele aceitava e, "lendo o futuro nas linhas das mãos", dava a resposta aos discípulos ansiosos: seu futuro é incerto. Deixemos Karma trabalhar de acordo com sua própria natureza, e continuemos a cultivar o bem no momento presente. Acho que basta gerarmos bom Karma... No momento da morte, durante a vida, juventude e velhice... Dar o melhor no momento presente... Isso é bom o suficiente.  Muito feliz


Última edição por Administrador em Dom 11 Jan 2015 - 16:15, editado 1 vez(es)
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Mensagem Dom 11 Jan 2015 - 15:16

illcircus escreveu:
Olá, pessoal! Ultimamente, tenho lido bastante a respeito do Budismo e cada vez mais me aproximo, mas até hoje tenho dúvidas quanto a trechos de um dos primeiros livros que escolhi, que foi uma biografia de Buda escrita por Sophie Royer (confesso que não gostei do trabalho dela):

"Da mesma maneira, ó Ananda, que a doença chamada de alforra surge em uma plantação de arroz em plena prosperidade – e então a prosperidade da plantação não dura muito tempo –, da mesma maneira, ó Ananda, quando em uma doutrina e em uma ordem as mulheres são autorizadas a renunciar ao mundo e a levar a vida de errante, então a vida santa não prospera por muito tempo. Se, ó Ananda, na doutrina e na ordem que o Tathagata fundou não tivesse sido concedida a possibilidade de as mulheres abandonarem o lar para levar vida de errante, a vida santa, ó Ananda, permaneceria em observância durante muito tempo: a doutrina pura seria mantida durante mil anos. Mas como, ó Ananda, na doutrina e na ordem que o Perfeito fundou, as mulheres renunciam ao mundo e adotam a vida de errante, a partir de agora, ó Ananda, a vida santa não vai mais permanecer muito tempo em observância: a doutrina da verdade agora não vai durar mais do que quinhentos anos".

E também:

"– Senhor, como devo me comportar perante as mulheres?
– Não tenha contato com elas.
– Mas, Tathagata, como poderei evitá-las?
– Ananda, se você encontrar uma mulher, evite qualquer conversa.
– E se ela me dirigir a palavra?
– Neste caso, você deve sempre tomar o cuidado de ser extremamente vigilante e não baixar a guarda".


Quanto a primeira citação, não sei se interpretei certo, já a segunda me parece bem objetiva. Alguém poderia me explicar melhor o relacionamento do Budismo com as mulheres?

Obrigada pela atenção Grato

Olá!  Feliz
Eu acho esse assunto difícil no Budismo, viu? Tem umas coisas no Cânone meio estranhas  Não entendi
Nem tudo eu levo ao pé da letra. De qualquer forma, eu vou te aconselhar a pensar sobre como um dos grandes monges da Tradição das Florestas da Tailândia, Ajahn Chah, lidou com isso. Ajahn Chah foi um grande monge, cujos discípulos atuais estão na Tailândia, Inglaterra, Nova Zelândia, Austrália, EUA, entre outros países. 
Ele disse que quando estava tendo problemas com Desejo Sexual, ele sempre baixa a cabeça quando via alguma mulher por perto. Se eu me lembro bem, ele diz que ficou assim por muito tempo, mas apenas isso não adiantou, pois as fantasias permaneciam fortes em sua mente. A partir desse momento, ele percebeu que a prática não é apenas conter, segurar - é também sobre canalizar as energias da mente para outro lugar.
Não adianta apenas ficar segurando a mente, não vendo nenhuma mulher por muito tempo, se você não muda as intenções da mente e continua alimentando desejo sexual. Não adianta você ir num retiro de meditação, sentar na almofada e ficar pensando sobre passado e futuro. A mudança deve vir de dentro, apesar que a mudança externa ajuda na mudança interna.
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Mensagem Ter 13 Jan 2015 - 22:35

É correto pensar que o ser estava em Nibbana antes do aparecimento da ignorância?


Última edição por José P. S. Filho em Qui 11 Jun 2015 - 10:48, editado 1 vez(es)
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Mensagem Qua 14 Jan 2015 - 21:09

Olá! 
Essa pergunta é perigosa na minha opinião... Nem tem como responder, se eu responder vai ser baseado em alguma coisa acadêmica, porque creio que só atingindo a Iluminação alguém compreenderia isso por si mesmo...
Leia esse trecho abaixo, que é um trecho de autoria oral de Ajahn Maha Boowa, monge tailandês que foi considerado Arahant (algúem que alcançou Nibbana). Esse trecho tirei de um arquivo que disponibilizei no Fórum sobre Nirvana, cujo texto é "A Descrição de Ariyas e Arahants para Nirvana". Tem alguns termos nesse trecho, como Citta (que é mente) e Avijja (Ignorância). Veja se você entende o trecho abaixo, mas lembre-se - a resposta é apenas acadêmica, para ver isso por nós mesmos, melhor não pensar muito nisso e partir para a prática  Feliz

Por que purificar a “citta primordial”?
[Ajahn Maha Boowa]: O termo “citta autêntica” se refere exclusivamente à pureza absoluta, ou sa-upadisesa-nibbana [Nibbana com combustível restante – é o Nibbana do Arahant “vivo”, isso é, ele alcançou Nibbana totalmente, mas ainda não morreu; logo, os seus sentidos ainda funcionam, apesar de ele ter alcançado a liberdade total dos agregados e dos renascimentos. Ao morrer, o Arahant alcança Nibbana sem combustível restante – Parinibbana], do Arahant. Nada mais pode, com honestidade e sem restrições, ser chamado de “citta autêntica”. Eu mesmo ficaria embaraçado em usar esse termo de alguma outra maneira. O termo “citta original” se refere à natureza original da citta que gira sem parar pelo Ciclo de Renascimentos. O Buddha indicou isso quando ele disse: “Monges, a citta original é intrinsecamente brilhante e clara, mas ela fica contaminada ao se misturar com as kilesas que vêm se envolver com ela.” Nesse sentido, “citta original” se refere à origem da realidade convencional (sammuti), não à origem da Pureza Absoluta (parisuddhi). Ao se referer à citta original, o Buddha expôs:
“Pabhassaramiday cittay bhikkhave” [trecho em Páli do Pabhassara Sutta] – Pabhassara significa luminosa, não pura. A sua dissertação está absolutamente correta, é impossível argumentar contra isso. Se o Buddha tivesse igualado a citta original com a citta pura, alguém poderia imediatamente contestar: “Se a citta era originalmente pura, por que ela deveria nascer afinal?”. [Ajahn Maha Boowa diz que a natureza original da mente não é a mesma natureza de Nibbana – caso contrário, como a mente originalmente pura se contaminaria [FOI ISSO QUE VOCÊ PERGUNTOU, NÃO É? Piscadela] ? Se assim fosse, um Arahant poderia voltar a renascer um dia, porque seu “Nibbana” seria contaminado de novo; mas Ajahn Maha Boowa disserta que isso é errado e, portanto, a natureza original da mente é diferente da natureza de Nibbana]. O Arahant, que purificou sua citta, é alguém que nunca virá a nascer novamente. Se a sua citta era originalmente pura, por que ele precisaria purifica-la? Esta seria a objeção óbvia: que razão haveria para purifica-la? A citta luminosa, por outro lado, pode ser purificada porque seu esplendor não é nada mais nada menos do que a essência da natureza verdadeira de avijja. Meditadores perceberão essa verdade claramente por eles mesmos no momento em que a citta transcender esse brilho para alcançar a Liberdade Absoluta (vimutti). Assim, o esplendor não aparecerá mais na citta. É nesse exato momento que se percebe a verdade suprema acerca da citta.
(Retirado de “Arahattamagga – Arahattaphala – The path to Arahantship”, pág. 100 - 101)
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Mensagem Sex 16 Jan 2015 - 12:41

Meus queridos, bom dia pra vocês todos. Como eu faço pra saber se aqui no grupo tem alguém da área da psicologia também? Que estuda e tudo mais? Queria poder trocar algumas ideias em relação ao budismo com a psicologia, querer entender e discutir certas coisas. Se alguém souber como, por favor, me avisem o contato. Seria bom.


Última edição por José P. S. Filho em Qui 11 Jun 2015 - 10:49, editado 1 vez(es)
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illcircus

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Mensagem Sex 16 Jan 2015 - 15:22

Obrigada ao Administrador e ao Mente Purificada pelas respostas; me parece, realmente, um assunto complicado que pede pesquisas mais aprofundadas. Em outras religiões a mulher costuma ser subjugada (só para esclarecer, eu sou mulher), mas não me parece ser o caso do Budismo. Como disse o Administrador, acho que o caso depende de interpretação.

PS: Gostei muito da questão levantada pelo José P. S. Filho. É uma dúvida minha, também, e as respostas estão excelentes!

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Mensagem Sex 16 Jan 2015 - 20:38

José P. S. Filho escreveu:
Queria poder trocar algumas ideias em relação ao budismo com a psicologia

Infelizmente eu não sou da área de psicologia. Eu tenho um amigo que é católico e psicólogo, professor da faculdade da minha cidade, ele gosta de Budismo e de vez em quando a gente conversa.
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Mensagem Ter 31 Mar 2015 - 7:16

illcircus escreveu:
Olá, pessoal! Ultimamente, tenho lido bastante a respeito do Budismo e cada vez mais me aproximo, mas até hoje tenho dúvidas quanto a trechos de um dos primeiros livros que escolhi, que foi uma biografia de Buda escrita por Sophie Royer (confesso que não gostei do trabalho dela):

"Da mesma maneira, ó Ananda, que a doença chamada de alforra surge em uma plantação de arroz em plena prosperidade – e então a prosperidade da plantação não dura muito tempo –, da mesma maneira, ó Ananda, quando em uma doutrina e em uma ordem as mulheres são autorizadas a renunciar ao mundo e a levar a vida de errante, então a vida santa não prospera por muito tempo. Se, ó Ananda, na doutrina e na ordem que o Tathagata fundou não tivesse sido concedida a possibilidade de as mulheres abandonarem o lar para levar vida de errante, a vida santa, ó Ananda, permaneceria em observância durante muito tempo: a doutrina pura seria mantida durante mil anos. Mas como, ó Ananda, na doutrina e na ordem que o Perfeito fundou, as mulheres renunciam ao mundo e adotam a vida de errante, a partir de agora, ó Ananda, a vida santa não vai mais permanecer muito tempo em observância: a doutrina da verdade agora não vai durar mais do que quinhentos anos".

E também:

"– Senhor, como devo me comportar perante as mulheres?
– Não tenha contato com elas.
– Mas, Tathagata, como poderei evitá-las?
– Ananda, se você encontrar uma mulher, evite qualquer conversa.
– E se ela me dirigir a palavra?
– Neste caso, você deve sempre tomar o cuidado de ser extremamente vigilante e não baixar a guarda".


Quanto a primeira citação, não sei se interpretei certo, já a segunda me parece bem objetiva. Alguém poderia me explicar melhor o relacionamento do Budismo com as mulheres?

Obrigada pela atenção Grato

Encontrei um texto em que Ajaan Chah explica essa passagem do Buda conversando com Ananda:

[Ajaan Chah:] Nós todos deleitamos nas formas, sons, odores, sabores, tato e objetos mentais, nós temos que refletir sobre isso. Forma, vocês entendem forma? Nosso corpo que está sentado aqui, corpo de homem, corpo de mulher. Forma. Sons nós conhecemos, odores, sabores, tato, nós todos conhecemos, objetos mentais são as sensações que surgem na mente. Quando temos contato com formas, sons, odores, sabores, tato, surgem sensações na mente, tudo se reúne aqui. É algo que não me surpreende.

Às vezes a pessoa anda lado a lado com o Dhamma o ano inteiro, a vida inteira e não o conhece. Vivem juntos o ano inteiro, a vida inteira e não o conhece. A gente pensa além da conta, temos expectativas altas demais. Temos expectativas altas demais na nossa prática a ponto de passar do limite. Por exemplo, a gente vê um corpo, os homens olham o corpo das mulheres, as mulheres olham o corpo dos homens, e assim por diante, todos ficam muito interessados, isso é porque eles criam expectativas altas demais. Tanto a língua quanto os olhos, querem experimentar o sabor, querem olhar os movimentos, todo tipo de coisa. Mas depois que se casam não tem nada demais. Eles querem é ficar longe um do outro, às vezes querem virar monge mas não podem.

É como o caçador que vê a caça, o caçador sai em busca da caça não é? Se ele vê uma caça que tem medo de gente, ela vê a pessoa e treme, se assusta da cabeça aos pés. O caçador gosta ainda mais, ele anda com ainda mais cuidado para que a caça não fuja. Aqui é a mesma coisa, é só ver um som, uma imagem e "Ohhhhh..." não é? Aí olha ainda mais, até começar a oprimir o coração. O caçador é a mesma coisa, é só ver a caça fica ainda mais feliz, tem medo que ela o veja, e aí gosta ainda mais. Se esforça ainda mais por medo que a caça fuja. Ele não está se lixando para o que vai ser da caça, quando tem oportunidade atira "Pum!" e ela morre. O trabalho do caçador acabou, ele só tem que ir olhar se ela morreu e é isso. Não tem mais excitação, ele pega a caça come e é só isso. Vê a orelha da caça e não tem nada demais, pega no rabo e não tem nada demais, mas quando ainda estava viva, ôôôi!, o coração dele não era assim. Ele via o comportamento dela e ficava muito excitado, fazia que o coração dele crescesse, se exaltasse, se alegrasse, gostava muito, tinha preocupação e cuidado. Nós somos iguais.

Com os corpos é assim, se ainda não conseguiu acha que é muito bonito, quando vive junto se entedia! É como a caça que já morreu, pode pegar na orelha, no rabo, a caça já morreu. Pega no rabo e é só isso, pega na orelha e é só isso, pois ela já morreu. Quando as pessoas se casam, podem fazer o que quiser e fica sem graça, e aí o que fazer? Vai procurar em outros lugares... Isso é por não refletir sobre si mesmo, se refletir bem não tem nada demais.

A gente cria expectativas altas demais, cria expectativas altas demais. Olha o corpo e pensa que vai dar para comer tudo, vai dar para comer as orelhas, os olhos, o nariz, é como se pensasse que não existisse excreção. Os estrangeiros, o que é que pensam sobre isso? Não é? Eles pensam que não vai haver excremento, se tiver vai ser pouco, não é? Dá para comer o corpo inteiro, isso é criar expectativa alta demais mas não é assim Não é assim. Como o gato e o rato, se ele corre o gato se esforça ainda mais para pegá-lo. Quando pega, se o rato tenta fugir o gato se esforça ainda mais para segurar. Se o rato já morreu o rato não faz nada, o gato não faz nada, e no final o gato vai embora. Aqui é a mesma coisa, cria expectativas altas demais. A gente morre bem aqui. Cria expectativas altas demais. Por isso os monges sofrem mais do que as demais pessoas no que diz respeito à sensualidade. 'Kāma' [Kāma – esse termo é diferente de kamma. Kāma se refere a sensualidade, já kamma significa 'ação'.] significa desejo, desejar maldade é desejo, desejar bondade é desejo, mas aqui kāma é desejar aquilo que agrada à mente. O que não agrada à mente não importa muito se desejamos ou não, mas aqui kāma é o desejo e só isso é a causa pela qual é tão difícil escapar.

Então o Buddha ensinava "Ānanda...", ele perguntou, o Ānanda perguntou  "O senhor vai alcançar parinibbāna, como devo agir para com as pessoas do sexo feminino? como devo agir para com as mulheres? Nesse momento é difícil e complicado, como devo agir para com as mulheres para que não hajam problemas?"

O Buddha respondeu "Ānanda, é melhor não vê-las."

O Ānanda ouviu e... "Humm, é difícil gente não ver gente...Se eu vir como vou fazer? Não deve
ser possível, vou ter que ver as pessoas...” - “Venerável senhor, se houver uma situação em que eu tenha que vê-las, o que devo fazer?"

"Ei! Não fale Ānanda, não fale!"

O Ānanda pensou de novo "Puxa... às vezes nós estamos andando na floresta e nos perdemos, e aí como é que faz... vou ter que falar... pode acontecer isso." - "Se houver razão para falar, como é que devo me comportar?"

"Ānanda fale mas tenha sati."

... não é?... ter sati. Em toda situação, todo tempo, sati é uma qualidade muito importante. Somente quando for necessário, olhe, mas só o que é necessário. Fale só o que for necessário, pergunte só o que for necessário. Se a mente estiver suja não olhe, não pergunte, não fale. Mas não é assim. Quanto mais a mente está suja, mais quer falar, não é? A causa está bem ali. Por isso eu tenho medo... medo... eu tenho muito medo disso. Quando mais suja mais quer perguntar, mais quer ver... É o oposto.

Mas o fato de que os senhores não sentem medo talvez seja porque são piores do que eu. "Medo? Não tem nada..." Eu prefiro sentir medo. Já ouviu dizer? Gente velha tem desejo sexual? Por isso eu digo, quando vêm morar aqui eu digo para ficar o mais longe possível, se não há necessidade não faça contato. Eu morava sob uma árvore, na floresta, eu vi os macacos na árvore acasalando, eu estava sentado em meditação olhando e também fiquei com vontade! Estava olhando sentado e fiquei com vontade "deve ser bom ser macaco igual a eles..." hã?... pois é. Até vendo os lagartos acasalando eu ficava com vontade! Mulheres não tinham chance de ouvir meu ensinamento naquela época, eu morria de medo. Elas não conseguiam ouvir. Não que eu tivesse raiva delas, é que eu era ignorante. Eu só falava com as velhinhas. Por ter tido cuidado é que consegui escapar dos perigos e chegar até aqui. Não é ficar erguendo as sobrancelhas "he! ha! he!" não é assim. Disso eu tinha medo, não fazia. Cuidado.
Nós samanas temos que ser assim, todos nós. Isso é algo importante...

Notas: Ajahn Chah alerta os monges sobre os truques que a mente prega nas pessoas. Esse ensinamento foi dado numa ocasião onde só haviam monges e provavelmente discípulos mais próximos, portanto a linguagem é bem informal e às vezes um pouco ofensiva, peço desculpas aos leitores. Há uma segunda tradução desta mesma desanā para a língua inglesa chamada “Right Restrain”.

Retirado do blog dhammadafloresta.org


Última edição por Mente Purificada em Qui 10 Set 2015 - 21:11, editado 1 vez(es)
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Mensagem Dom 5 Abr 2015 - 9:00

Qual a reflexão budista sobre o suicídio? Existem implicações cármicas?


Última edição por José P. S. Filho em Qui 11 Jun 2015 - 10:51, editado 2 vez(es)
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Mensagem Qua 8 Abr 2015 - 10:05

Qual a diferença entre um Arahant e um Buda?


Última edição por José P. S. Filho em Qui 11 Jun 2015 - 10:08, editado 1 vez(es)
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Mensagem Dom 12 Abr 2015 - 10:50

É verdade que um sotapanna não renasce mais nos mundos inferiores?
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murilofiori

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Mensagem Sab 2 Maio 2015 - 0:04

ola, preciso fazer um trabalho sobre o budismo para a faculdade e fiquei com o tópico "posição/orientação quanto ao meio ambiente" então queria a ajuda de vcs para que eu possa intender melhor como o budismo se manifesta qunto ao meio ambiente, espero q vcs possam me ajudar! desde ja agradeço.
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Mensagem Sab 2 Maio 2015 - 11:02

murilofiori escreveu:
ola, preciso fazer um trabalho sobre o budismo para a faculdade e fiquei com o tópico "posição/orientação quanto ao meio ambiente" então queria a ajuda de vcs para que eu possa intender melhor como o budismo se manifesta qunto ao meio ambiente, espero q vcs possam me ajudar! desde ja agradeço.

Não sei lhe responder ao certo, mas deixo aqui alguns ensinamentos de Thich Nhat Hanh e Dalai Lama falando um pouco sobre o meio ambiente, espero que isso lhe ajude em algo.

***

Se você pensa que Deus criou os humanos à Sua própria imagem e que Ele criou todas as outras coisas para os humanos as usarem, você já está discriminando e considerando as pessoas como sendo mais importantes do que os outros seres. Quando compreendemos a inexistência do eu humano, compreendemos que cuidar do ambiente (dos elementos não humanos) é cuidar da humanidade. Temos que respeitar e proteger outras espécies para que tenhamos uma chance. A melhor forma de cuidar bem dos seres humanos para que eles sejam verdadeiramente saudáveis e felizes é cuidando dos outros seres e do meio ambiente. Conheço ecologistas que estão infelizes em suas famílias. Eles trabalham muito para melhorar o ambiente, em parte, para fugir da infelicidade de suas vidas em família. Se uma pessoa não está feliz consigo mesma, como poderia ajudar o ambiente? Proteger os elementos não-humanos é proteger os humanos, e proteger os humanos é proteger os elementos não-humanos. (Thich Nhat Hanh). Leia o texto na íntegra no site Viver Consciente, clique aqui.

***

Os textos abaixo foram retirados do site do Dalai Lama:

Ensinamentos: Uma Abordagem Ética à Proteção Ambiental

A paz e a vida na Terra estão ameaçadas por atividades humanas não compromissadas com valores humanitários. A destruição da natureza e seus recursos é resultado da ignorância, da cobiça e da falta de respeito pelos seres vivos, incluindo nossos próprios descendentes. As gerações futuras herdarão um planeta extremamente degradado, caso a paz mundial não se efetive e a destruição da natureza continue nesse ritmo.

Nossos ancestrais viam a Terra como rica e generosa, o que ela realmente é. Muita gente no passado também via a natureza como inexaurivelmente sustentável. Está comprovado que caso cuidemos bem da Terra, ela pode ser efetivamente uma fonte inesgotável de recursos. Não é difícil perdoar a destruição causada à Terra no passado, fruto da ignorância. Hoje, contudo, temos fácil acesso a todo o tipo de informação e é essencial que examinemos eticamente o que herdamos, quais são nossas responsabilidades e o que passaremos para as gerações vindouras.

Muitas dessas gerações poderão não conhecer habitats, animais, plantas, insetos e microorganismos da Terra. Temos a capacidade e a obrigação de agir e devemos fazê-lo antes que seja tarde demais. O mesmo cuidado que temos em cultivar relações pacíficas com nossos semelhantes, deve ser estendido ao meio ambiente. E não apenas por uma questão moral ou ética, mas pela nossa própria sobrevivência. Para a geração presente e para as futuras, o meio ambiente é fundamental. Se o explorarmos exaustivamente, podemos receber algum benefício hoje, mas, a longo prazo, sofreremos as conseqüências. Quando o meio ambiente se altera, as condições climáticas também se alteram e, por conseguinte, nossa saúde está sendo muito afetada. Repetindo, a conservação não é meramente uma questão moral, mas sim da nossa própria sobrevivência.

Portanto, para conseguirmos proteção e conservação ambiental mais eficazes, é essencial que o ser humano desenvolva um equilíbrio interno. O desconhecimento em relação à importância da preservação do meio ambiente causou graves danos à humanidade. Precisamos agora ajudar as pessoas a compreenderem a necessidade urgente da proteção ambiental para a nossa sobrevivência. Se você quer ser egoísta, então seja sábio e não mesquinho em seu egoísmo. A chave está no nosso senso de responsabilidade universal. Essa é a verdadeira fonte de luz, a verdadeira fonte de felicidade. Se esgotarmos tudo o que estiver disponível na Natureza, como árvores, água e sais minerais, e não fizermos um planejamento adequado para as próximas gerações, para o futuro, certamente estaremos em falta. Entretanto, se tivermos um verdadeiro senso de responsabilidade universal como força motriz, nossa relação com o meio ambiente e com nossos vizinhos serão bem mais equilibradas. Por último, a decisão de salvar o meio ambiente deve brotar do coração do homem. Clamemos a todos para que desenvolvam um senso de responsabilidade universal fundamentado no amor, na compaixão e na clareza de consciência.

(Texto extraído da obra A Policy of Kindness, Snow Lion Publications, 1990.)

***

Ensinamentos: Ecologia e o Coração Humano

Segundo os ensinamentos budistas, há uma interdependência muito próxima entre o meio ambiente natural e os seres sencientes que nele habitam. Alguns de meus amigos me disseram que a natureza humana básica é um tanto violenta, mas eu disse que não concordo. Se examinarmos os diferentes tipos de animais, por exemplo, aqueles cuja própria sobrevivência depende de tirar outras vidas, como tigres ou leões, aprendemos que a sua natureza básica dota-lhes com dentes e garras afiadas. Animais pacíficos, como corças, que são totalmente vegetarianas, são mais gentis, possuem dentes menores e não têm garras. Desse ponto de vista, nós seres humanos temos uma natureza não violenta. Quanto à questão da sobrevivência humana, os seres humanos são animais sociais. Para sobreviver, precisamos de companheiros. Sem outros seres humanos não há possibilidade alguma de sobrevivência; esta é a lei da natureza.

Como acredito profundamente que os seres humanos são basicamente gentis por natureza, sinto que devemos não só manter relações gentis e pacíficas com a comunidade de seres humanos, mas também que é muito importante estender a mesma atitude gentil para com o meio ambiente natural. Do ponto de vista moral, devemos nos preocupar com todo o nosso meio ambiente.

Além disso, há um outro ponto de vista, não é só uma questão de ética, mas uma questão de nossa própria sobrevivência. O meio ambiente é muito importante não só para esta geração, mas também para as gerações futuras. Se explorarmos o meio ambiente de maneira extrema, embora possamos conseguir algum dinheiro ou outro benefício com isso agora, em longo prazo nós próprios sofreremos e as gerações futuras também sofrerão. Quando o meio ambiente muda, as condições climáticas também mudam. Quando elas mudam dramaticamente, a economia e muitas outras coisas também mudam. Até a nossa saúde física será fortemente afetada. Então, isto não é só uma questão moral, mas também uma questão de nossa própria sobrevivência.
Portanto, para o sucesso da proteção e conservação do meio ambiente natural, penso que é importante primeiro de tudo fazer com que um equilíbrio interno aconteça dentro dos próprios seres humanos. O abuso do meio ambiente, que resultou em tais danos à comunidade humana, surgiu da ignorância quanto à importância do meio ambiente. Penso que é essencial ajudar as pessoas a compreender isto. Precisamos ensinar às pessoas que o meio ambiente tem uma relação direta com o nosso próprio benefício.
Eu estou sempre falando da importância do pensamento compassivo. Como disse antes, até do seu próprio ponto de vista egoísta, você precisa de outras pessoas. Então, se desenvolver a preocupação pelo bem estar de outras pessoas, compartilhar o sofrimento dos outros, e ajudá-los, no fim você se beneficiará. Se pensar só em si mesmo e se esquecer dos outros, no fim você perderá. Isso também é como a lei da natureza.
É muito simples: se você não sorrir para as pessoas, mas olhar de forma carrancuda, eles vão responder de maneira similar, não vão? Se lidar com outras pessoas de uma maneira muito sincera e aberta, eles se comportarão de forma similar. Todo mundo quer ter amigo e não quer ter inimigo. A forma correta de fazer amizades é ter um coração caloroso e não só dinheiro ou poder. Amigos do poder e amigos do dinheiro são coisas diferentes: eles não são amigos verdadeiros. Amigos verdadeiros devem ser verdadeiros amigos do peito, concordam? Eu estou sempre dizendo às pessoas que os amigos que aparecem quando você tem dinheiro e poder não são seus verdadeiros amigos, mas amigos do dinheiro e do poder, porque assim que o dinheiro e o poder desaparecerem, estes amigos também estão prontos para partir. Eles não são confiáveis.
Amigos humanos autênticos ficam ao seu lado quer você tenha sucesso ou esteja sem sorte e sempre dividem as suas dores e cargas. A maneira de fazer tais amizades não é tendo raiva, nem tendo boa educação ou inteligência, mas tendo um bom coração.
Para aprofundar o pensamento, se você precisa ser egoísta, então que seja sabiamente egoísta, e não tacanhamente egoísta. A chave é o senso de responsabilidade universal; esta é a verdadeira fonte da força, a verdadeira fonte da felicidade. Se a nossa geração explora tudo que há disponível — as árvores, a água, e os minerais — sem qualquer cuidado com as próximas gerações ou o futuro, então estamos errados, não estamos? Mas se tivermos um senso genuíno de responsabilidade universal como nossa motivação central, então as nossas relações com nossos vizinhos, tanto os nacionais quanto os internacionais serão promissoras.
Uma outra questão importante é: O que é consciência e o que é a mente? No mundo ocidental, durante os últimos um ou dois séculos, houve grande ênfase em ciência e tecnologia, que trata principalmente da matéria. Atualmente alguns físicos nucleares e neurologistas dizem que quando investigamos partículas de uma forma muito detalhada, há algum tipo de influência do lado do observador, o sabedor. O que é este sabedor? Uma resposta simples é: um ser humano, o cientista. Como este cientista sabe? Com o cérebro, os cientistas ocidentais identificaram até agora apenas umas centenas. Agora, quer chame isto de mente, cérebro, ou consciência, há uma relação entre cérebro e mente e também entre mente e matéria. Penso que isto é importante, Acredito que é possível manter algum tipo de diálogo entre a Filosofia Oriental e a Ciência Ocidental com base neste relacionamento.
Em qualquer caso, atualmente nós seres humanos estamos muito envolvidos com o mundo externo, enquanto negligenciamos o mundo interno. Precisamos de desenvolvimento científico e desenvolvimento material para sobreviver e para aumentar o benefício e a prosperidade geral, mas precisamos igualmente de paz mental. No entanto, nenhum médico pode aplicar uma injeção de paz mental, e nenhum mercado pode vendê-la. Se você for até um supermercado com milhões e milhões de dólares, você pode comprar qualquer coisa, mas se for até lá e pedir paz mental, as pessoas vão rir. É se pedir a um médico a paz mental autêntica, não a simples sedação que consegue tomando algum tipo de pílula ou injeção, o médico não poderá ajudá-lo.
Até os atuais computadores sofisticados não podem dar paz mental. A paz mental deve vir da mente. Todo mundo quer felicidade e prazer, mas se compararmos prazer físico e dor física com prazer mental e dor mental, chegamos à conclusão de que a mente é mais efetiva, predominante e superior. Assim, vale a pena adotar certos métodos para aumentar a paz mental, e para fazer isto é importante saber mais a respeito da mente. Quando falamos de preservação do meio ambiente, isso está relacionado a muitas outras coisas. O ponto chave é ter um senso autêntico de responsabilidade universal, baseado em amor e compaixão, e consciência clara.
(Extraído de My Tibet, Thames and Hudson Ltd., London, 1990, pág. 53-54. Traduzido por Marly Ferreira.)

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Ensinamentos: Responsabilidade Universal e o Meio Ambiente
Ainda menino, ao estudar o budismo, foi-me ensinado a importância de uma atitude de cuidado para com o meio ambiente. A nossa prática de não violência se aplica não só aos seres humanos, mas a todos os seres sencientes — qualquer ser vivente que possua uma mente. Onde houver uma mente, haverá sentimentos como dor, prazer e alegria. Nenhum ser senciente deseja a dor: em vez disso, todos querem a felicidade. Acredito que todos os seres sencientes compartilham estes sentimentos em um nível básico.
Na prática budista, ficamos tão familiarizados com esta idéia de não-violência e cessação de todo sofrimento que ficamos acostumados a não fazer mal ou destruir qualquer coisa indiscriminadamente. Apesar de não acreditarmos que árvores ou flores têm mentes, nós as tratamos com respeito. Assim, compartilhamos um senso de responsabilidade universal tanto pela humanidade quanto pela natureza.
A nossa crença na reencarnação é um exemplo de nossa preocupação com o futuro. Se você pensar que vai renascer, provavelmente dirá a si mesmo, "eu preciso preservar tal e tal coisa porque minha reencarnação futura conseguirá continuar com estas coisas". Embora exista uma chance que você possa renascer como uma criatura — talvez até em um planeta diferente — a idéia da reencarnação lhe dá um motivo para ter preocupação direta com este planeta e as gerações futuras.
No ocidente, quando falamos de "humanidade" estamos normalmente nos referindo apenas à atual geração de seres humanos. A humanidade do passado já foi. O futuro, como a morte, ainda não chegou. As idéias ocidentais normalmente lidam com o lado prático das coisas unicamente para esta geração atual de seres humanos.
Os sentimentos tibetanos a respeito do meio ambiente se baseiam inteiramente na religião. Eles se derivam de todo o modo de vida tibetano, não só do budismo. Por exemplo, vamos considerar o budismo no Japão ou Tailândia, em meio ambientes diferentes dos nossos. Suas culturas e suas atitudes não são as mesmas que as nossas. O nosso meio ambiente único nos influenciou fortemente. Não vivemos em uma ilha pequena e imensamente populosa. Historicamente, temos tido muito pouca ansiedade com as nossas áreas imensas, pequena população, e vizinhos distantes. Não nos sentimos tão oprimidos quanto as pessoas em outras comunidades humanas.
É muito possível praticar a essência de uma fé ou cultura sem praticar a religião. A nossa cultura tibetana, apesar de ser uma cultura, apesar de ser altamente influenciada pelo budismo, não obteve toda a sua filosofia do budismo. Certa vez, eu sugeri a uma organização que lidava com refugiados tibetanos que seria interessante fazer alguma pesquisa sobre quanto o nosso povo havia sido afetado por sua maneira de abordar a própria vida no Tibet. Quais são os fatores que fazem com que os tibetanos sejam geralmente felizes e serenos? As pessoas estão sempre procurando respostas em nossa religião única, esquecendo-se de que o nosso meio ambiente é igualmente incomum.
A preocupação com o meio ambiente não é necessariamente santa, nem requer compaixão. Nós budistas expressamos a compaixão por todos os seres, mas esta compaixão não é necessariamente estendida a cada pedra, ou árvore, ou casa. A maioria de nós está meio preocupada com nossa própria casa, mas não somos realmente compassivos com ela. Mantemos a casa em ordem para que possamos viver e ser felizes. Sabemos que para ter sentimentos felizes em nossa casa devemos cuidar dela. Então, os nossos sentimentos podem ser de preocupação em vez de compaixão.
De forma similar, o nosso planeta é a nossa casa, e devemos mantê-lo em ordem e cuidar dele se formos sinceramente preocupados com a nossa felicidade e a felicidade de nossos filhos, amigos e outros seres sencientes que compartilham conosco esta grande casa. Se pensarmos no planeta como sendo a nossa casa, ou como a "nossa mãe" — a Terra Mãe — vamos automaticamente nos preocupar com o nosso meio ambiente. Atualmente compreendemos que o futuro da humanidade depende muito de nosso planeta, e que o futuro do planeta depende muito da humanidade. Mas isto não tem sido sempre claro para nós. Até agora, a Terra Mãe têm de certa forma tolerado nossos hábitos caseiros desleixados. Mas agora, o uso humano, a população e a tecnologia alcançaram até um estágio onde a Terra Mãe não aceita mais a nossa presença em silêncio. De muitas maneiras ela agora está nos dizendo, "Meus filhos estão se comportando mal", ela está nos avisando que há limites para as nossas ações.
A atitude do budismo tibetano é uma de contentamento, e pode haver alguma ligação aqui com a nossa atitude em relação ao meio ambiente. Não consumimos indiscriminadamente. Colocamos um limite em nosso consumo. Admiramos a vida simples e a responsabilidade individual. Sempre nos consideramos parte de nosso meio ambiente, mas não apenas qualquer parte. As nossas escrituras antigas falam do container e do contido. O mundo é o container — a nossa cassa e nós somos o contido — o conteúdo do container.
Destes fatos simples deduzimos um relacionamento especial, porque sem o container, o conteúdo não pode ser contido. Sem o conteúdo o container nada contém, é sem sentido.
Em meu Plano de Paz de Cinco Pontos, propus que Tibet inteiro se tornasse um santuário, uma zona de paz. O Tibet certa vez já foi isso, mas sem qualquer designação oficial. Paz significa harmonia: harmonia entre as pessoas, entre pessoas e animais, entre seres sencientes e o meio ambiente. Visitantes do mundo inteiro viriam ao Tibet para vivenciar paz e harmonia. Em vez de construir grandes hotéis com muitos andares e muitos quartos, faríamos pequenos prédios, mais parecidos com residências particulares, que estariam em melhor harmonia com a natureza.
Não há nada errado em os humanos usarem a natureza para fabricar coisas úteis, mas não devemos explorar a natureza desnecessariamente. È bom viver em uma casa, ter remédios e poder dirigir para algum lugar de carro. Nas mãos certas, uma máquina não é um luxo, mas sim algo bastante útil. Uma máquina fotográfica, por exemplo, pode ser usada para tirar fotos que promovem a compreensão.
Mas tudo tem limite. Muito consumo ou esforço para ganhar dinheiro não é bom. Nem é bom contentamento demais. Em princípio, o contentamento é uma meta, mas o contentamento puro fica quase como um suicídio, não é? Penso que os tibetanos tiveram, em certas áreas, contentamento demais. E perdemos o nosso país. Atualmente, não podemos nos permitir tanto contentamento a respeito do meio ambiente.
A paz e a sobrevivência da vida na terra como a conhecemos estão ameaçadas pelas atividades humanas sem compromisso com valores humanitários. A destruição da natureza e recursos naturais é resultado de ignorância, ganância e falta de respeito por tudo que vive sobre a terra. Esta falta de respeito se estende aos descendentes humanos da terra, às gerações futuras que herdarão um planeta vastamente degradado se a paz mundial não se tornar uma realidade e se a destruição do meio ambiente natural continuar no ritmo atual.
Os nossos ancestrais viam a terra como rica e abundante, o que ela é. Muitas pessoas no passado também viram a natureza como inesgotavelmente sustentável, o que agora sabemos que só será o caso se cuidarmos dela. Não é difícil perdoar a destruição no passado que foi motivada por ignorância. Mas, hoje em dia temos acesso a mais informações. É essencial que reexaminemos de forma ética o que herdamos, pelo que somos responsáveis, e o que vamos deixar para as gerações vindouras.
Esta é claramente uma geração crucial. A comunicação global é possível, no entanto confrontos ocorrem com mais freqüência do que diálogos significativos pela paz. As nossas maravilhas da ciência e tecnologia são equiparadas, se não excedidas, pelas muitas tragédias correntes, inclusive a inanição humana em algumas partes do mundo e a extinção de outras formas de vida. A exploração do espaço sideral ocorre ao mesmo tempo em que cresce a poluição dos oceanos, mares e águas frescas da própria terra, e suas formas de vida ainda são em grande parte desconhecidas ou mal compreendidas. Muitos dos habitats, animais, plantas, insetos e até micro-organismos da terra que conhecemos como raros podem não ser conhecido pelas gerações futuras. Temos a capacidade e a responsabilidade. Devemos agir antes que seja tarde demais.

(Extraído de My Tibet, Thames and Hudson Ltd., Londres, 1990, pág. 79-80. Traduzido por Marly Ferreira.)

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Ensinamentos: Um Conceito Budista de Natureza
Hoje à noite eu direi algo sobre o conceito budista de natureza.
Nagarjuna disse que para um sistema onde o vazio é possível, também é possível haver funcionalidade, e desde que a funcionalidade é possível, o vazio também o é. Assim quando nós falamos sobre a natureza, seu princípio é o vazio. O que significa o vazio ou shunyata? Não é o vazio da existência, mas especialmente o vazio da existência verdadeira ou independente, que significa que as coisas existem pela interdependência entre si.
Assim tanto o meio ambiente quanto seus habitantes são compostos de quatro ou cinco elementos básicos. Estes elementos são: terra, vento, fogo, água e vácuo, que é o espaço. Sobre o espaço, no Tantra de Kalachakra há uma menção do que é conhecido hoje por átomo de espaço, partículas de espaço; que formam a força central de todo fenômeno. No início, todo o universo evoluiu desta força central que é a partícula do espaço, e também uma parte deste universo se dissolverá eventualmente nesta mesma partícula. Assim é na base destes cinco elementos que há uma grande interrelação entre o habitat que é o meio ambiente e os habitantes, isto é, os seres senscientes que vivem nele.
Quando nós falamos sobre os elementos, também há elementos internos que existem inerentemente dentro dos seres senscientes; são também de níveis diferentes - alguns são sutis e alguns são brutos.
Assim de acordo com os ensinamentos budistas, a consciência sutil íntima é exclusiva do criador e se consiste das formas mais sutis destes elementos. Estes elementos sutis servem de condições para produzir os elementos internos, que formam os seres senscientes, e que por sua vez causam a existência ou a evolução dos elementos externos. Assim há uma interdependência ou um inter-relacionamento muito próximo entre o meio ambiente e os habitantes.
Dentro do significado da interdependência há muitos níveis diferentes onde as coisas são dependentes dos fatores ocasionais, ou das suas próprias partes, ou da mente conceitual, que realmente é a que designa.
O tópico que nós estamos discutindo hoje é o inter-relacionamento ou a interdependência entre o meio ambiente e os seres senscientes que vivem nele.
Agora veja, alguns dos meus amigos dizem que a base da natureza humana é violenta. Então eu disse a estes amigos que não penso assim. Se nós examinarmos mamíferos diferentes, há animais como tigres ou leões que dependem muito de outra vida para sua sobrevivência básica e, por causa de sua natureza básica têm uma estrutura especial, com dentes e unhas longos. Há também animais calmos tais como os cervos, que são completamente herbívoros e seus dentes e unhas são mais delicados. Portanto desse ponto de vista, nós seres humanos pertencemos à categoria delicada, não é? Nossos dentes e unhas são muito delicados. Então eu disse a estes amigos que eu não concordo com seu ponto de vista. Eu creio que os seres humanos têm uma natureza de base não violenta.
Também, sobre a pergunta da sobrevivência humana, os seres humanos são animais sociais. A fim de sobreviver você necessita de outros companheiros; sem outros seres humanos não há simplesmente nenhuma possibilidade de sobreviver; essa é lei da natureza, essa é natureza.
Creio profundamente que os seres humanos são basicamente de natureza delicada e também penso que a atitude humana com o nosso meio ambiente deveria ser delicada. Conseqüentemente acredito que não somente devemos manter um relacionamento delicado e não violento com outros companheiros humanos, mas também é muito importante estender esse tipo de atitude ao meio ambiente. Eu penso, moralmente falando, que nós podemos pensar assim e nós todos devemos nos preocupar com o nosso meio ambiente.
A partir disso vou expor outro ponto de vista e neste caso não é uma questão de moralidade ou de ética; é uma questão de nossa própria sobrevivência. Não somente esta geração, mas para outras gerações o meio ambiente é algo muito importante. Se nós explorarmos o meio ambiente de maneira extrema, hoje nós podemos ganhar algum benefício, mas a longo prazo nós sofreremos e outras gerações sofrerão. Assim quando o meio ambiente muda, as circunstâncias climáticas também mudam. Quando a mudança é dramática, estruturas econômicas e muitas outras coisas também mudam, ate mesmo nosso corpo físico. Assim você pode ver o grande efeito dessa mudança. Portanto, desse ponto de vista esta é não somente uma questão de nossa sobrevivência individual.
Conseqüentemente, a fim de conseguir resultados mais eficazes e a fim de ter sucesso na proteção, conservação e preservação do meio ambiente, primeiramente penso que também é importante falar sobre o equilíbrio interno dos seres humanos. Desde que a negligência com o meio ambiente - que resultou em muitos danos à comunidade humana - surgiu da ignorância em relação a grande importância do meio ambiente, eu penso que é fundamental introduzir gradualmente este conhecimento dentro dos seres humanos. Assim, é muito importante ensinar ou contar para as pessoas sobre sua importância para seu próprio benefício.
Então, uma das coisas mais importantes outra vez, como eu estou sempre dizendo, é o pensamento que manifesta a compaixão. Como eu mencionei anteriormente, mesmo do ponto de vista de alguém egoísta, você necessita de outras pessoas. Assim, mostrando interesse pelo bem-estar de outras pessoas, compartilhando do sofrimento de outras pessoas e ajudando outras pessoas, no final você irá se beneficiar. Se pensar somente em si mesmo e se esquecer dos outros ao final você perderá. Isto também é algo como a lei da natureza. Eu penso que é completamente simples. Se você não mostrar um sorriso para outras pessoas e mostrar algum tipo de olhar mau ou algo como isso, o outro lado também irá dar uma resposta similar. Não é verdade? Se você mostrar para outras pessoas uma atitude muito sincera e aberta também haverá uma resposta similar. Então é uma lógica bem simples. Todos querem ter amigos e não querem ter inimigos. A maneira apropriada para criar amigos é através de um coração quente e não simplesmente pelo dinheiro ou pelo poder. Os amigos do poder e os amigos do dinheiro são algo diferente. Estes não são amigos.
Um amigo verdadeiro deve ser um amigo verdadeiro do coração, não é assim? Eu estou sempre dizendo para as pessoas que aqueles amigos que lhe vêem quando você tem dinheiro e poder não são seus amigos verdadeiros mas são amigos do dinheiro e do poder. Porque assim que seu dinheiro e poder desaparecer, aqueles amigos também estarão prontos para dizer tchau, adeus. Assim você vê que estes amigos não são de confiança. Os amigos humanos sinceros e verdadeiros sempre compartilharão de seu sofrimento, suas aflições e irão sempre vir a você, não importando se você é bem sucedido ou azarado. Assim a maneira de conquistar um amigo verdadeiro não é pela raiva, nem pela educação ou inteligência, mas pelo coração - um bom coração. Assim, como eu sempre digo se você pensar em uma maneira mais profunda, se você for egoísta então você deve ser sabiamente egoísta, não um egoísta limitado pela mente. Desse ponto de vista, a coisa chave é o sentido da Responsabilidade Universal, que é a verdadeira fonte da força e da felicidade.
Desta perspectiva se em nossa geração explorarmos tudo o que está disponível: as árvores, água, recursos minerais ou qualquer outra coisa sem nos importarmos com a geração seguinte, com o futuro, isso é nossa culpa, não é? Assim se nós tivermos um sentimento verdadeiro de responsabilidade universal baseando o centro da nossa motivação e dos princípios, as nossas relações com o meio ambiente serão bem equilibradas. Isto é similar ao equilíbrio dos aspectos dos relacionamentos, das nossas relações com vizinhos, com os vizinhos da nossa família, ou com os vizinhos do nosso país.
Realmente, contado também em versos antigos, muitos grandes pensadores assim como grandes mestres espirituais foram produzidos neste país, a Índia. Assim, eu sinto em épocas modernas que estes grandes pensadores indianos, tais como Mahatma Gandhi e alguns políticos executaram idéias nobres como o ahimsa na arena política. Em uma determinada maneira a política estrangeira da Índia de não-alinhamento é relacionada também com aquele tipo de princípio moral. Assim creio ser neste país muito relevante e importante uma grande expansão ou um desenvolvimento além destas idéias ou ações nobres.
Agora em respeito a isso, uma outra coisa que eu sinto ser importantíssima é o que é consciência, o que é mente? Até agora, eu penso especialmente no mundo Ocidental, durante o último ou penúltimo século onde a ciência e a tecnologia foram muito enfatizadas e trataram principalmente da matéria.
Hoje alguns dos físicos nucleares e neurologistas começaram a investigar e analisar partículas em uma maneira muito detalhada e profunda. Ao fazerem isso encontraram algum tipo de participação do lado do observador que chamam às vezes de "o conhecedor". O que é "o conhecedor"? Falando de uma maneira simples é o ser, o ser humano, como cientistas através de que maneira os cientistas sabem? Eu penso que é através do cérebro. Agora em relação ao o cérebro os cientistas ocidentais ainda não identificaram completamente as mais de cem bilhões das células cerebrais. Creio que de cem bilhões somente algumas centenas foram identificadas até o momento. Em relação à mente, se você a chama de mente ou de uma energia especial do cérebro, ou de consciência, você verá que há um relacionamento entre o cérebro e a mente e entre a mente e a matéria. Isto eu penso ser muito importante. Eu sinto que deveria haver algum tipo de diálogo entre a filosofia oriental e a ciência ocidental na base do relacionamento entre a mente e a matéria.
Em todo o caso, hoje nossa mente humana está procurando muito ou está muito envolvida com o mundo externo. Eu penso que nós estamos perdendo ao não nos importarmos e ignorarmos o mundo interno.
Nós necessitamos de desenvolvimento científico e material a fim de sobreviver, de ter benefícios e mais prosperidade. Igualmente necessitamos da paz mental. Nenhum médico pode nos injetar a paz mental: nenhum mercado pode vender a paz mental ou a felicidade. Com milhões e milhões de rúpias você pode comprar qualquer coisa, mas se for a um supermercado e dizer eu quero a paz mental as pessoas irão rir. E se você pedir a um médico: quero a verdadeira paz mental, não tediosa, você poderá conseguir um comprimido para dormir ou alguma injeção. E embora você consiga descansar o resto não estará no caminho correto, certo?
Portanto se você quiser a verdadeira paz ou a tranquilidade mental o médico não poderá fornecê-las. Uma máquina como o computador, por mais sofisticado não pode fornecer paz mental. A paz mental deve vir da mente. Todos querem a felicidade e o prazer. Agora, compare o prazer físico e a dor física com a dor mental ou o prazer mental e você descobrirá que a mente é superior, mais eficaz e dominante. Assim sendo deve-se aumentar a paz mental através de determinados métodos. A fim de fazer isso é importante conhecer mais a mente, o que considero fundamental.
Quando você diz meio ambiente, ou preservação do meio ambiente, isto está relacionado com muitas coisas. No final das contas a decisão deve vir do coração humano, não é verdade? Creio que o ponto chave é o verdadeiro sentido da responsabilidade universal, baseado no amor, na compaixão e numa consciência límpida.
(Transcrito de um palestra no dia 4 de Fevereiro de 1992, em Nova Deli, Índia. Traduzido por Thilie Sproesser e revisado por Arnaldo Bassolli.)

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Ensinamentos: Espiritualidade e Natureza
Penso que vocês vieram aqui com alguma expectativa, mas essencialmente eu nada tenho a oferecer-lhes. Quero simplesmente tentar compartilhar algumas de minhas próprias experiências e meus pontos de vista. Cuidar do planeta não é algo especial, algo sagrado, ou algo santo. É como cuidar de nossa própria casa. Não temos outro planeta ou casa a não ser este. Embora haja tantas perturbações e problemas, a nossa única alternativa é esta. Não podemos ir para outros planetas. Veja a lua, por exemplo, ela parece ou surge belamente à distância, mas se for viver lá, será horrível. E isto que eu penso. Então, o nosso planeta azul é muito melhor e mais feliz. Portanto, precisamos cuidar de nosso próprio canto, ou casa, ou planeta.
Afinal, o ser humano é um animal social. Freqüentemente digo aos meus amigos que eles não precisam estudar filosofia, estes assuntos profissionais complicados. Só de olhar estes animais, insetos, formigas, abelhas, etc. inocentes, eu desenvolvo com freqüência algum tipo de respeito por eles. Como? Porque eles não têm qualquer religião, qualquer constituição, qualquer força policial, nada. Mas vivem em harmonia através da lei natural da existência, ou da lei ou sistema da natureza.
O que há de errados em nós, seres humanos? Nós humanos temos inteligência e sabedoria humana. Penso que freqüentemente usamos a inteligência humana de maneira errada ou na direção errada. Como resultado, de certa forma, estamos fazendo certas ações que essencialmente vão contra a natureza humana básica.
De certo ponto de vista, a religião é, um pouco, um luxo. Se você tiver uma religião, ótimo; até sem religião você pode sobreviver e consegue manejar, mas sem afeto humano não consegue sobreviver.
Embora a raiva e o ódio, como compaixão e amor, sejam parte de nossa mente, eu ainda acredito que a força dominante de nossa mente é a compaixão e o afeto humano. Portanto, normalmente chamo estas qualidades humanas de espiritualidade, não necessariamente no sentido de uma mensagem religiosa ou religião. Ciência e tecnologia junto com afeto humano serão construtivas. Ciência e tecnologia sob o controle do ódio serão destrutivas.
Se praticarmos a religião corretamente, ou com sinceridade, podemos ver que a religião não é algo fora de nós, mas algo que está em nossos corações. A essência de qualquer religião é um bom coração. Às vezes chamo amor e compaixão de religião universal. Esta é minha religião. Uma filosofia complicada, isto ou aquilo, às vezes cria mais transtornos e problemas. Se estas filosofias sofisticadas forem úteis para o desenvolvimento do bom coração, então isto é bom: use-as inteiramente. Se estas filosofias ou sistemas complicados se tornarem um obstáculo para o bom coração, então é melhor deixá-las de lado. É assim que eu sinto.
Se olharmos atentamente para a natureza humana, vemos que o afeto é a chave para o bom coração. Penso que a mãe é um símbolo da compaixão. Todos nós temos uma semente do bom coração. O que importa é se cuidamos ou não de realizar o valor da compaixão.
(Um discurso feito no quarto dia do Simpósio Ecumênico de Middlebury sobre religião e o meio ambiente, Universidade de Middlebury, Vermont, EUA, de 14 de setembro de 1990. Traduzido por Marly Ferreira.)

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Ensinamentos: Um Meio Ambiente Limpo é um Direito Humano
O Tibet não deve ser usado para produção de armas nucleares e despejo de lixo nuclear. Os tibetanos têm um grande respeito por todas as formas de vida. Este sentimento inerente é reforçado pela nossa fé budista, que proíbe fazer mal a qualquer ser senciente, seja humano ou animal. Antes da invasão chinesa, o Tibet era um santuário selvagem, belo, fresco e impoluto, em um meio ambiente natural único.
Infelizmente, durante as últimas poucas décadas, a vida selvagem do Tibet tem sido quase que totalmente destruída e, em muitos lugares, suas florestas sofreram danos irreparáveis. O efeito global sobre o delicado meio ambiente tibetano tem sido devastador — particularmente porque a altitude e aridez do país significam que o processo de restauração da vegetação demorará muito mais do que em regiões mais baixas e úmidas. Por este motivo, o pouco que restou deve ser protegido e esforços estão sendo feitos para reverter os efeitos da destruição perversa e temerária do meio ambiente tibetano pela China.
Ao fazer isto, a primeira prioridade será parar a produção de armamento nuclear e, ainda mais importante, evitar o despejo de lixo nuclear. Aparentemente, a China planeja não só despejar o seu próprio lixo nuclear, mas também importar lixo de outros países em troca de dinheiro. O perigo que isto representa é óbvio. Não só as gerações atuais, mas também as gerações futuras estão ameaçadas. Além disso, os problemas inevitáveis que isto traria para a região poderiam facilmente se transformar em uma catástrofe de proporções globais. Dar lixo para a China, que pode ter acesso a grandes áreas de terra pouco populosas, mas que só tem tecnologia bruta, poderia mostrar ser apenas uma solução de curto prazo para o problema.
Se eu fosse realmente votar em uma eleição, seria por um dos partidos ligados ao meio ambiente. Um dos desenvolvimentos mais positivos do mundo recentemente tem sido a crescente conscientização da importância da natureza. Não há nada de santo ou sagrado nisso. Cuidar de nosso planeta é como cuidar de nossas casas. Como nós, seres humanos, viemos da Natureza, não faz sentido irmos contra a Natureza, que é o motivo pelo qual digo que o meio ambiente não é uma questão de religião, ética, ou moralidade. Estes são luxos, já que podemos sobreviver sem eles. Mas não sobreviveremos se continuarmos agindo contra a natureza.
Precisamos aceitar isto. Se causarmos um desequilíbrio na Natureza, a humanidade sofrerá. Além disso, como pessoas vivas atualmente, precisamos levar em consideração as gerações futuras: um meio ambiente limpo é um direito humano como qualquer outro. É, portanto, parte de nossa responsabilidade para com os outros assegurar que o mundo que deixarmos para os outros seja tão saudável, se não mais saudável, quanto o que encontramos. Esta não é uma proposta tão difícil quanto parece. Pois, embora haja um limite ao que nós, como indivíduos, podemos fazer, não há limite para o que uma resposta universal possa alcançar. Depende de nós, como indivíduos, fazermos o que pudermos, por menor que seja. Só porque desligar a luz quando sairmos da sala pareça inconseqüente, isto não significa que não devemos fazê-lo.
É aqui que, como um monge budista, eu sinto que a crença no conceito do karma é bastante útil para a condução da vida cotidiana. Uma vez que você acredita na conexão entre a motivação e seus efeitos, você ficará mais alerta aos efeitos que as suas próprias ações têm sobre si mesmo e sobre os outros.
Assim, apesar da continuidade da tragédia do Tibet, eu vejo muito bem acontecendo no mundo. Fico especialmente encorajado de que a crença no consumismo como um fim em si parece estar cedendo a um reconhecimento de que nós humanos devemos conservar os recursos da terra. Isto é muito necessário. Os seres humanos são, em certo sentido, as crianças da terra. E, enquanto até agora a nossa Mãe em comum tolerou o comportamento de seus filhos, atualmente ela está nos mostrando que ela atingiu seu limite de tolerância.
Rezo para que um dia eu conseguirei carregar esta mensagem de preocupação pelo meio ambiente e por outros para o povo da China. Já que o budismo não é estranho aos chineses, acredito que conseguirei servi-los de forma prática. O predecessor do último Panchen Lama certa vez realizou uma cerimônia de iniciação de Kalachakra em Pequim. Se eu fosse fazer o mesmo, seria sem precedentes. Pois, como um monge budista, as minhas preocupações se estendem a todos os membros da família humana e, de fato, a todos os sofridos seres sencientes.
Acredito que este sofrimento seja causado pela ignorância, e que as pessoas infligem dor aos outros em busca de suas próprias felicidades ou satisfações. Mas, a verdadeira felicidade vem de um senso de paz interior e contentamento, que por sua vez devem ser alcançados cultivando-se o altruísmo, amor, compaixão, e pela eliminação da raiva, egoísmo e ganância.
Para algumas pessoas isto pode parecer ingenuidade, mas eu os lembraria que, 'não importa de qual parte do mundo viemos, fundamentalmente somos todos os seres humanos iguais. Todos nós buscamos a felicidade e tentamos evitar o sofrimento. Temos as mesmas necessidades e preocupações básicas. Além disso, todos nós seres humanos queremos a liberdade e o direito de determinar o nosso próprio destino como indivíduos. Esta é a natureza humana. As grandes mudanças acontecendo em todas as partes do mundo, desde a Europa Oriental até à África, é uma clara indicação disto.
Ao mesmo tempo, os problemas que atualmente enfrentamos — conflitos violentos, destruição da natureza, pobreza, fome, e assim por diante — são principalmente problemas criados pelos humanos. Eles podem ser solucionados — mas unicamente através do esforço humano, compreensão, e o desenvolvimento de um senso de irmandade. Para isto, precisamos cultivar uma responsabilidade universal uns pelos outros e pelo planeta que compartilhamos, baseados em um bom coração e conscientização.
Agora, embora a minha própria religião budista tenha sido útil em gerar amor e compaixão, estou convencido que estas qualidades podem ser desenvolvidas por qualquer um, com ou sem religião. Acredito, ainda, que todas as religiões buscam as mesmas metas: as de cultivar a bondade e trazer felicidade a todos os seres humanos. Embora os meios possam parecer diferentes, os fins são os mesmos.
Com o sempre crescente impacto da ciência sobre nossas vidas, a religião e a espiritualidade têm um papel maior a desempenhar em nos lembrar da humanidade. Não há contradição entre as duas. Cada uma nos dá valorosos insights sobre a outra. Tanto a ciência quanto os ensinamentos do Buda nos falam da unidade fundamental de todas as coisas.
Finalmente, gostaria de compartilhar com meus leitores uma pequena prece, que me dá grande inspiração e determinação:
Enquanto o espaço existir,
E enquanto os seres viventes perdurarem,
Possa eu também permanecer
Para afastar as misérias do mundo.
(Adaptado de um capítulo de Responsabilidade Universal e o Bom Coração do livro Liberdade no Exílio: A Autobiografia de Sua Santidade o Dalai Lama do Tibet; Hodder and Stoughton. Reino Unido, 1990. Pág. 280-299. Traduzido por Marly Ferreira.)

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Ensinamentos: Pensando Globalmente - Uma Tarefa Universal
As previsões científicas para alterações ambientais são difíceis de serem inteiramente compreendidas por seres humanos comuns. Ouvimos falar de aquecimento global e elevação dos níveis dos oceanos, aumento dos índices de câncer, explosão demográfica, devastação de recursos, e extinção de espécies. Por toda parte, a atividade humana está acelerando a destruição de elementos-chave de ecossistemas naturais dos quais todos os seres viventes dependem.
Estes desenvolvimentos ameaçadores são individualmente drásticos e coletivamente surpreendentes. A população mundial triplicou apenas neste século e espera-se que ela dobre ou triplique no próximo século. A economia global pode crescer um fator de cinco ou dez vezes, inclusive com índices extremos de consumo de energia, produção de gás carbônico, e desflorestamento. É difícil imaginar todas estas coisas realmente acontecendo durante a nossa vida e as vidas de nossos filhos. Precisamos considerar este panorama de sofrimento e degradação ambiental global sem par na história humana.
No entanto, penso que há boas notícias e que agora definitivamente teremos de encontrar novas formas de sobrevivermos juntos neste planeta. Já vimos neste século guerras, pobreza, poluição e sofrimentos suficientes. Segundo os ensinamentos budistas, tais coisas acontecem como resultado da ignorância e de atos egoístas, porque freqüentemente deixamos de ver a relação comum essencial entre todos os seres. A terra está nos enviando avisos e indicações claras dos vastos efeitos e potencial negativo do comportamento humano mal direcionado.
Para neutralizar estas práticas prejudiciais podemos aprender a ser mais conscientes de nossa dependência mútua. Todo ser senciente quer a felicidade em vez de dor. Então, compartilhamos o mesmo sentimento básico. Podemos desenvolver a ação correta para ajudar a terra e uns aos outros baseados em uma motivação melhor. Portanto, sempre falo da importância de desenvolver um senso genuíno de responsabilidade universal. Quando somos motivados por sabedoria e compaixão, os resultados de nossas ações beneficiam a todos e não a nós mesmos ou a alguma conveniência imediata. Quando conseguirmos reconhecer e perdoar atos ignorantes do passado, ganhamos força para solucionar os problemas do presente de forma construtiva.
Devemos estender esta atitude para sermos preocupados com todo o nosso meio ambiente. Como princípio básico, penso que é melhor ajudar se puder, e se não puder, pelo menos tentar não prejudicar. Esta é uma orientação especialmente adequada quando houver ainda muito a compreender sobre as inter-relações complexas dos diversos e únicos ecossistemas.
Precisamos saber cuidar, nós mesmos, de toda a Terra e da vida sobre ela, e também de todas as gerações futuras. Isto significa que a educação do meio ambiente é de grande importância para todos. O aprendizado científico e o progresso tecnológico são essenciais para melhorar a qualidade de vida no mundo moderno. Ainda mais importante é a prática simples de conhecer e melhor apreciar os nossos arredores naturais, e a nós mesmos, quer sejamos crianças ou adultos. Se tivermos um apreço verdadeiro pelos outros e resistirmos agir movido por ignorância, estaremos cuidando da Terra.
No sentido maior, educação ambiental significa aprender a manter um modo de vida equilibrado. Todas as religiões concordam que não podemos encontrar satisfação interna duradoura baseada em desejos egoístas e aquisição do conforto de coisas materiais. Mesmo se pudéssemos, agora há tanta gente que a terra não nos sustentaria por muito tempo. Penso que é muito melhor praticar apreciar uma simples paz de espírito.Podemos compartilhar a terra e juntos cuidarmos dela, em vez de tentarmos possuí-la e, no processo, destruir a beleza da vida.
As culturas antigas que se adaptaram aos seus meio ambientes naturais podem oferecer uma visão especial sobre a estruturação de sociedades humanas para que existam em equilíbrio com o meio ambiente. Por exemplo, os tibetanos estão singularmente familiarizados com a vida no Planalto do Himalaia. Isto evoluiu para uma longa história de uma civilização que cuidou de não sobrecarregar e destruir o seu frágil ecossistema. Os tibetanos há muito apreciam a presença de animais selvagens como símbolos da liberdade. Uma profunda reverência pela natureza está aparente em grande parte das artes e cerimônias tibetanas. O desenvolvimento espiritual prosperou apesar do limitado progresso material. Assim como as espécies podem não se adaptar a alterações ambientais relativamente repentinas, as culturas humanas também precisam ser tratadas com cuidado especial para garantir a sobrevivência. Portanto, aprender o modo de vida dos povos e preservar suas heranças culturais é também uma parte do aprendizado de cuidar do meio ambiente.
Eu sempre tento expressar o valor de ter um bom coração. Este simples aspecto da natureza humana pode ser alimentado e alcançar uma grande força. Com um bom coração e sabedoria, você tem a motivação correta e automaticamente fará o que for preciso. Se as pessoas começarem a agir com uma autêntica compaixão por todos, ainda podemos proteger uns aos outros e o meio ambiente natural. Isto é muito mais fácil do que ter que adaptar às condições ambientais severas e incompreensíveis que são projetadas para o futuro.
Agora, olhando de perto, a mente humana, o coração humano, e o meio ambiente estão inseparavelmente interligados. Neste sentido, a educação ambiental ajuda a gerar a compreensão e o amor que precisamos para criar a melhor oportunidade jamais vista para a paz e coexistência duradoura.
(Transcrita do Boletim EPA: Uma Revista sobre Perspectivas Nacionais e Globais do Meio Ambiente, publicada pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, Washington DC, Setembro/Outubro de 1991, vol. 17, Número 4. Traduzido por Marly Ferreira.)

Ensinamentos: A Importância de Plantar e Proteger Árvores
Em diversas ocasiões, tenho comentado a importância de plantar árvores tanto na Índia, o nosso lar atual, como no Tibet. Hoje, como um gesto simbólico, estamos realizando uma cerimônia de plantio de árvores aqui no assentamento. Afortunadamente, o movimento para um compromisso mais profundo com a proteção ambiental através do plantio de árvores novas e de cuidar das existentes, está crescendo rapidamente em todo o mundo. No nível global, árvores e florestas estão muito ligadas aos padrões climáticos e também à manutenção de um equilíbrio crucial na natureza. Portanto, a tarefa da proteção ambiental é uma responsabilidade universal de todos nós. Penso que é extremamente importante para os tibetanos que vivem nos assentamentos não só ter um grande interesse pela causa da proteção ambiental, mas também para implementar este ideal em ações de plantio de novas árvores. Assim, estaremos fazendo um gesto importante para o mundo em demonstrar as nossas preocupações globais e, ao mesmo tempo, fazer a nossa própria pequena, mas significativa contribuição à causa.
Se olharmos ao redor, podemos agora ver que aquelas casas nos monastérios e em vários assentamentos onde as pessoas plantaram árvores frutíferas, agora apreciam um grande benefício como conseqüência de seus atos. Em primeiro lugar, se houver uma árvore em seu quintal, isto cria uma ambiente de beleza natural e serenidade. É óbvio que também podemos comer as frutas da árvore e sentarmos sob a árvore, apreciando sua sombra agradável. De sua parte, o que se esperava é um pouco de paciência para dar tempo para a árvore crescer.
Finalmente, gostaria de fazer uma sugestão a respeito do uso de suas terras no assentamento. Neste assentamento vocês já iniciaram um projeto de plantio de árvores. Penso que este é um ótimo plano. Ao plantar árvores frutíferas em suas terras, não só asseguramos que a terra permaneça produtiva, mas também que vocês terão frutas para comer. Em suma, gostaria de enfatizar mais uma vez que é extremamente importante plantar árvores novas e protegeras que já crescem ao seu redor.
(Discurso de 6 de dezembro de 1990, em uma cerimônia especial realizada no Assentamento Tibetano Doeguling, em Mundgod, no sul da Índia. Adaptado de Boletim Informativo Tecnologia Apropriada para Tibetanos - ApTibet, Boletim Informativo nº 5, setembro de 1991. Traduzido por Marly Ferreira.)


Última edição por Mente Purificada em Ter 8 Set 2015 - 6:54, editado 2 vez(es)
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Mensagem Seg 4 Maio 2015 - 7:54

José P. S. Filho escreveu:
Amigos, qual a diferença entre um Arahant e um Buda?

A diferença é que um Buda possui as qualidades necessárias para estabelecer uma religião (sasana), um sistema  religioso. A iluminação que o Buda, Paccekabuddha e o Arahant alcançam é a mesma, não há diferença de libertação, ambos estão libertos do samsara da mesma forma.
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Mensagem Seg 4 Maio 2015 - 7:59

José P. S. Filho escreveu:
É verdade que um sotapanna não renasce mais nos mundos inferiores?

Sim, de acordo com o glossário do Acesso ao Insight:

sotapanna: aquele que entrou na correnteza ou venceu a correnteza. Uma pessoa que abandonou os primeiros três grilhões (samyojana) que aprisionam a mente ao ciclo de renascimentos (samsara) e dessa forma entrou na "correnteza" fluindo inexoravelmente para nibbana, com a garantia de que a pessoa terá no máximo mais sete renascimentos.
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