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 Karma, Personalidade e Individualidade

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Júlio Melo .'.

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Local : Maceió-AL
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Mensagens : 11

Mensagem Sex 27 Set 2013 - 11:34

Saudações a todos,

Desde o inicio de meus estudos com relação ao metafisico e espiritual me aproximei das doutrinas espiritualistas de reencarnação e karma. Porém quando iniciei minhas pesquisas e leituras sobre o budismo percebi algumas sutilezas que me "preocuparam" pois a meu ver eu estaria prestes a mudar meu conceito sobre tais fundamentos ou terminaria por me afastar do budismo por incompatibilidade, como ocorreu com diversas outras religiões e filosofias.

Dessa forma, venho escrever em nosso Fórum o questionamento que me pus a fazer quando da leitura sobre os temas acima citados e rogo humildemente que os amigos me auxiliem a dirimir a duvida ou fazer seus próprios questionamentos.

Percebi que alguns budistas preferem o uso do termo reencarnação (Tibetano) enquanto outros acham melhor fazer uso do termo renascimento. Até ai tudo bem, mas sutilmente mudam-se ideias por trás destes conceitos. Pelo que entendi nas primeiras leituras, caso esteja errado eu clamo por correção, o Budismo trás consigo a ideia de que a personalidade existe durante a vida, porém quando o individuo morre e renasce essa personalidade se perde na vida passada, dando inicio a uma nova vida e consequentemente com uma nova personalidade. Como sabemos, a ideia do budismo é extinguir tal personalidade chegando ao estado búdico, ao nirvana e assim deixar de renascer, sair da samsara.

Pois bem, iniciaram minhas inquietações dai. O Karma é visto como uma lei de Causa e Efeito, Ação e Reação, desse modo, tentando simplificar temos que o que fazemos nos trazem consequências futuras, baseadas na ação praticada. A inconsistência passa a existir em minha cabeça pelo seguinte: Criemos um caso hipotético de que nessa vida, eu percorra a obscuridade e por vingança e ódio, mate um individuo. É fato que isso irá implicar de forma "negativa" em meu Karma e digamos que a minha vida termine de forma que eu não tenha "pago" por tal crime. O budismo fala que o ódio, o erro, a vingança e todo e qualquer mal reside na personalidade. Dessa forma, ao renascer eu perco a personalidade que errou na "vida" passada e recebo "uma nova", mas então...como fica o Karma? Terei de "pagar" por um erro cometido outrora por uma personalidade que me passou impressões nesta vida, porém não se trata de minha personalidade atual?

Sei que existem detalhes que podem mudar tudo, mas consideremos o caso de forma geral. Ao receber impressões e marcas de um ser que viveu é justo absorver de forma análoga o karma que o individuo contraiu quando vivo? A meu ver, o Karma não se explicaria se assim fosse.

Meditei muito sobre isso e quando me pus em receptividade: Estava a ler um livro que peguei na biblioteca intitulado "O Evangelho de Buda" da editora pensamento, quando observo o seguinte trecho e temporariamente o termo Individualidade me "salvou" da angustia que eu estava. Esse foi o trecho:

"O egoismo não é recipiente adequado do êxito, porque a personalidade é frágil e pequena.
 Pelo contrário, a individualidade é capaz de conter as aspirações nobres de suas personalidades sucessivas, e quando uma personalidade se rompe como uma bolha de sabão, seu harmônico conteúdo se identifica com a individualidade universal."

Foi fantástico! (Claro, se minha interpretação foi feita da maneira correta)
Pois bem, isso me jogou uma claridade nos olhos pelo seguinte: O budismo se fez mestre em diferenciar estados como não ocorre na maioria das sendas, o termo personalidade veio a existir para assim facilitar o entendimento pelo "esquecimento" pós-nascimento dos indivíduos. Pois a personalidade traduziria o passageiro de cada vida, aquilo que veio em branco, surgiu por influências mundanas e escolhas feitas. Por outro lado (que muito me acalma) surge o termo individualidade, que segundo o trecho descrito do livro, é um fundamento que faz o importante papel de trazer o "aprendizado" conquistado em outras vidas para a atual. Quando, porém, o individuo atingir a iluminação a personalidade atual acaba e essa individualidade pode então se infundir ao todo, a individualidade universal como colocado no texto.

Muito interessante, enquanto eu vos escrevia percebi outro detalhe que terminou por me colocar em duvida novamente. Sendo apenas a individualidade mantida e os erros resultantes da atuação da personalidade, como seria "justo" trazer o karma para próxima vida mantendo a individualidade quando a personalidade fora a provocadora do "erro" e esta fora apagada ou melhor "renascida"?

Enfim, termino o texto clamando por opiniões pois as minhas entraram em conflito. Estaria eu não entendendo os termos utilizados pelo Budismo? Esse texto traduz um pensamento budista? O que seria a personalidade e a individualidade? Como justifica a manutenção do karma de uma para a outra vida? A personalidade se extingue e se renova a cada vida ou apenas no momento em que o individuo atinge o estado búdico? Sendo o ultimo a resposta, então individualidade e personalidade não seria a mesma coisa?

Agradeço desde já cada opinião dos membros dessa Sangha!
Fraternalmente,
Júlio César Oliveira de Melo .'.
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Mensagem Sab 28 Set 2013 - 21:42

Huumm... que pergunta interessante e... difícil Rindo 
Como de costume, responderei de acordo com a minha capacidade e conhecimentos, só que, já não sou de dar resposta pequena, mas suas perguntas requerem respostas grandes mesmo, porque vou entrar na Lei de Karma, no funcionamento do Renascimento e sobre o que o Cânone fala que seja Nirvana, além da natureza da mente (Citta).
Sobre a questão de Karma, vou te apresentar um símile para facilitar o entendimento, mas antes desse, vou apresentar outro que geralmente passa bem o funcionamento do Renascimento e da Lei de Karma. Para que as pessoas entendam que não existe um indíviduo, uma alma ou uma identidade inerente transmigrando de corpo em corpo, mas sim de um processo, alguns mestres gostam de ilustrar o Renascimento da seguinte maneira: há uma árvore, dessa um fruto brota e ele dispersa várias sementes. Uma semente dá origem a outra árvore, que por sua vez produz uma semente que dá origem a outra árvore, e assim por diante. O que acontece aqui: há "algo" que passou de uma árvore a outra, mas as árvores são as mesmas? Não. Da mesma maneira, não existe um entidade inerente dentro de nós que está indo de um corpo para o outro. O que existe é um Fluxo de Karma e uma Mente (Citta, em páli) que, diante de determinadas condições, podem frutificar num determinado corpo de um determinado reino de existência (Deva, Humano, Animal, Petas, entre outros). É essa mente que é comum em todos os renascimentos, mas essa mente é um processo que muda a todo instante, não uma alma intacta e inerente  como implica a ideia de reencarnação. Por isso esse símile da árvore é útil para perceber que não há Alma reencarnando, mas um processo nascendo novamente em um corpo.
Agora, você pergunta sobre o fato de pagarmos pelo Karma ruim de uma personalidade passada. Considere, como exemplo, a situação em que o DNA de um pai é passado para o seu filho. Um pai pode ter um problema genético e passa-lo ao filho, ou passar uma doença viral a ele, e assim o filho terá de lidar com isso durante sua vida. Karma funciona mais ou menos assim. Não é exatamente essa personalidade que fez algo mal no passado, mas as personalidades, "Eu" são convenções para se referir a combinação corpo - mente - fluxo de Karma. Entretanto, até o momento da Iluminação, carregamos mente - fluxo de karma, embora troquemos de corpo de vez em quando. Então, trocar de personalidade é apenas trocar de corpo, mas continuamos "vestindo" nossas mentes até o Nirvana. Portanto, se essas mentes realizaram alguma marca num outro corpo, essa marca continuará lá com ela.
Retomando a situação do DNA. Pode ser que um filho receba um gene que o torne propenso a desenvolver um Câncer. Mas sabemos que não é apenas o código genético que influencia no desenvolvimento de um tumor, a alimentação e o estilo de vida também influenciam. Com Karma também é assim: há influências tanto passadas quanto futuras. Por isso Budismo é Caminho do Meio outra vez: ele não é nem defensor do Livre-Arbítrio, pois sequer há um "Eu", mas também não é defensor do Determinismo, alegando que há um destino que não podemos mudar. Nesse presente momento, tenho influências passadas agindo, mas ao mesmo tempo, tenho o poder de fazer algo com essas influências e alterar as suas consequências dependendo da minha capacidade. Muitos interpretam a Teoria de Karma muito mal falando isso: "O presente é resultado do passado. O futuro é resultado do presente." Isso é verdade, mas isso é um entendimento muito parcial da Lei de Karma, porque não é só isso. O presente é resultado do passado, mas podemos ter alguma influência nesse momento presente dependendo do que fizermos no agora. O Buda deixou claro isso para os Niganthas, que praticavam Ascetismo, pensando que se torturassem o corpo purificariam sua "alma", veja:
[Buda]: "[...] eu disse para os Niganthas: ‘O que vocês pensam, amigos Niganthas? Quando há esforço intenso, intensa diligência, vocês sentem sensações dolorosas, torturantes e penetrantes devido ao esforço? Mas quando não há intenso esforço, não há intensa diligência, vocês então não sentem sensações dolorosas, torturantes e penetrantes devido ao esforço?’
[Niganthas]: Quando há esforço intenso, amigo Gotama, intensa diligência, então sentimos sensações dolorosas, torturantes e penetrantes devido ao intenso esforço; mas quando não há intenso esforço, não há intensa diligência, então não sentimos sensações dolorosas, torturantes e penetrantes devido ao esforço.
[Buda]: Assim parece, amigos Niganthas, que quando há esforço intenso ... vocês sentem sensações dolorosas, torturantes e penetrantes devido ao esforço; mas quando não há esforço intenso... vocês não sentem sensações dolorosas, torturantes e penetrantes devido ao esforço. Sendo assim, não é apropriado que os veneráveis Niganthas declarem: 'Qualquer coisa que uma pessoa sinta, quer seja prazer ou dor, ou nem prazer, nem dor, tudo é causado pelo que foi feito no passado. Então, aniquilando através do ascetismo as ações passadas e não cometendo novas ações, não haverá consequência no futuro. Sem consequência no futuro ... todo o sofrimento será extinto.'” - (retirado de Devadaha Sutta - acessoaoinsight)
Essa é a teoria do Jainismo: através da automortificação devemos aniquilar as ações passadas e não fazer mais nada no presente, assim, não haverá sofrimento no futuro. Mas o Buda mostrou como isso é tolo: quando eles fazem muito esforço pela prática da automortificação, naquele EXATO MOMENTO eles sentem dor. Essa dor veio de Vidas Passadas? Não, está vindo da prática da automortificação. Então, podemos influenciar no nosso Karma no presente momento. Além disso, automortificação não elimina ações passadas, mas ainda é uma ação intencional no agora que orienta a sofrimento da mesma forma.
Então, não tem como escapar do que "você" fez em Vidas Passadas, mas você tem o agora para dar o seu melhor. Gosto de ilustrar isso com o símile de um carro. Suas ações inábeis reduzem sua gasolina, suas ações hábeis aumentam a gasolina. Você sempre tem gasolina suficiente para ir a duas cidades diferentes. Se você for a cidade "certa", ou seja, se você fizer Karma bom, aumentará a gasolina e você poderá ir para mais cidades, ou seja, terá mais capacidade de fazer mais coisas no agora. O que quero dizer com isso?
Você sempre tem gasolina suficiente para ir a duas cidades - você sempre tem algum poder para influenciar seu Karma no agora.
Se você for para a cidade "certa", aumentará a gasolina e você poderá ir para mais cidades - se você fizer bom Karma, você estará cada vez mais sábio e apto a fazer melhores escolhas para purificar o seu Karma.
Outra coisa importante de Karma é que depois que você fez o Karma ruim, não existe Karma bom que "anule" isso. Nenhum Karma anula outro Karma, um Karma feito é um Karma feito. O que pode acontecer é que um Karma pode "amenizar" os efeitos de outro Karma. Além disso, todos e qualquer Karma só frutifica e provoca consequências se ele estiver em condições propícias de frutificar. Uma flor não floresce no deserto? Assim também cada Karma requer determinadas situações para frutificarem, tanto que há duas possibilidades para alguém que gerou Karma ruim: ela morre, o karma frutifica e ela renasce num estado infeliz; ou ela morre, renasce num estado prazeroso e se karma frutifica depois.
[Buda]: “Aqui, Ananda, através do ardor, esforço, devoção, diligência e atenção correta, um contemplativo ou brâmane alcança uma tal concentração da mente que, quando a sua mente está concentrada, com o olho divino que é purificado e ultrapassa o humano, ele vê aquela pessoa que matava seres vivos ... e que tinha entendimento incorreto, e ele vê que na dissolução do corpo, após a morte, ela renasceu num estado de privação, num destino infeliz, nos reinos inferiores, até mesmo no inferno.
[...] Mas aqui, Ananda, através do ardor ... um contemplativo ou brâmane alcança uma tal concentração da mente que, quando a sua mente está concentrada, com o olho divino que é purificado e ultrapassa o humano, ele vê aquela pessoa que matava seres vivos ... e que tinha entendimento incorreto, e ele vê que na dissolução do corpo, após a morte, ela renasceu em um destino feliz, até mesmo no paraíso." - (retirado de Mahakammavibhanga Sutta - acessoaoinsight)
Existem fluxos de Karma que sequer frutificam, porque eles não encontram situação adequada e assim ficam lá, "fossilizados". Então, o funcionamento de Karma é mais complexo do que imaginamos. Podemos ter de arcar sim com um Karma ruim de uma vida passada, e às vezes isso só acontece daqui a algumas vidas, quando esse Karma conseguir frutificar. Apesar disso, todas nossas ações no presente tem uma grande influência sobre o Karma passado, tanto que nosso presente não é totalmente premeditado por Karmas passados. Além disso, lembre-se que um Karma não anula o outro, apenas "ameniza". É como se Karma ruim fosse sal e Karma bom fosse água. Você não pode acabar com o sal numa jarra, mas pode jogar mais água e deixar o conteúdo menos salgado. Da mesma forma, quanto mais Karma bom você fizer, melhor para você, mas isso não significa que a semente do Karma ruim que você fez não esteja lá. Está lá sim, mas você está tornando as condições para que esse frutifique mais difíceis de se encontrarem presentes.
Outra coisa que quero destacar. Você disse "A personalidade se extingue e se renova a cada vida...?", você pode ver isso a cada instante. O que é o Eu? O problema é que quem eu sou agora não é o mesmo daqui um minuto. Em cinco minutos você pode sentir raiva, inveja, alegria, angústia, êxtase, paz. Nos 10 segundos em que você sente raiva, no primeiro ela pode estar menos intensa do que no quarto. O que quero dizer é que se olharmos profundamente, somos impermanentes demais. Personalidade pode ser usada convencionalmente para dizer que uma vida é uma personalidade, mas no final das contas, temos de enxergar a impermanência de "quem somos" de forma mais acurada.
Falando de Personalidade e Individualidade, essa é uma questão perigosa. Eu dei uma olhada numa versão em PDF desse livro, e até vi uma descrição falando que ele tentou trazer o pensamento budista para os ocidentais, e me parece que é isso mesmo, porque algumas coisas ele tentou jogar para a nossa linguagem ocidental ou da nossa Psicologia, como exemplo:
"*1 O Homem é formado por dois eus: o eu exterior que é a personalidade ligada ao mundo material e o Eu Interior ou Eu Superior, que é o Espírito imortal. O eu exterior (também chamado “inferior”) é mortal, material e transitório. O Eu Interior é eterno, imortal. A Psicologia chama ao eu exterior “per- sonalidade” ou “ego” e ao Eu Interior, “Inconsciente”."
Só que nesse "tentar passar o Budismo para o entendimento ocidental" podem ocorrer certos "acidentes". Pelo que eu já li, não só do Cânone mas também do comentário de vários mestres, Buda nunca falou algo que tenha sentido de "Inconsciente". De acordo com ele, a medida que Atenção Plena vai se refinando, conseguimos perceber coisas que não percebíamos antes, logo, não há coisa que só fique no Inconsciente e que nunca poderemos perceber, basta treinarmos nossas mentes e poderemos enxergar de forma mais precisa.
Outra coisa, falar "Eu Interior eterno e imortal" também é meio "intrigante". Primeiro que Nirvana não é uma coisa eterna. De fato Nirvana é imortal, mas não é eterno:
[Buda]: "Existe, bhikkhus, o que não nasceu - o que não é - o que não é fabricado - o que não é condicionado." - (retirado de Nibbana Sutta - Udana 3 - acessoaoinsight)
[Buda]: "Nessa esfera da existência, eu digo, não há vir, nem ir, nem permanecer; não há morte nem renascimento [...]" - (retirado de Nibbana Sutta - Udana 1 - acessoaoinsight)
Se não há morte, é imortal. Só que não é eterno. Buda ilustrou para Vacchagotta que Nirvana é como a cessação de uma chama. Você tira o capim e outros combustíveis do fogo e ele apaga. Você diz "O fogo está apagado para sempre!"? Alguns podem dizer isso, só que não ficamos medindo quantos minutos algo cessou, algo apagou, algo deixou de existir, concorda que isso é estranho, falar que algo deixou de existir para sempre? Então Nirvana não é nem impermanente, nem eterno, é algo atemporal. É meio difícil explicar isso, mas vou tentar te mostrar o que os supostos Arahants, os iluminados, falam sobre Nirvana.
O Caminho para Nirvana é Virtude -> Concentração -> Sabedoria, isso é um resumo do Nobre Caminho Óctuplo. A essência do caminho é o Desapego. Agindo virtuosamente, desenvolvemos nossa meditação e entramos em Jhana. Nisso, os 5 sentidos são desligados (Desapego do Corpo). Nos Jhanas, Ajahn Brahmavamso diz: "SEM PENSAMENTOS, SEM PODER DE DECISÃO, SEM PERCEPÇÃO DO TEMPO". Sem poder de decisão = Desapego da Volição. É o que muitos mestres chamam de desapego do "Fazedor". Nesse campo não há pensar, não há desejo por fazer algo, só há a essência observadora da mente, apenas experienciando as experiências profundamente, sem conceitua-las, mas apenas percebendo-as. Nisso, dois Insights são importantes: o corpo não é o meu Eu; a volição (a capacidade de escolha, de desejar, de fazer) não é o meu Eu.
Resta o "sabedor", a natureza da mente de estar "atenta". Os que chegam aqui pensam que esse é o seu Eu, mas os Arahants alertam que isso é um engano, mesmo a mente em seu estado natural não é o Eu. De acordo com o Buda, a natureza da mente é luminosa é imaculada. A mente purificada é uma mente que não se mistura com as sensações e emoções. Ela ainda tem emoções, mas elas não a agitam. A mente apenas observa - essa é a natureza de Citta (mente). Mas como eu disse, os Arahants alegam que mesmo a mente não é o Eu.
Maha Boowa fala que nesse ponto muitos pensam que alcançaram a Iluminação, e ficam usufruindo dessa mente que só observa sem ser contaminada, mas aqui ainda há desejo, ainda há apego por essa mente que observa, e assim ainda há renascimento, o que está faltando perceber? Isso tudo, de acordo com o Buda, se dá devido à Ignorância, o último elo da Origem Dependente que é a causa do Desejo. Mas ignorância de que? Maha Boowa fala que é como se estivéssemos numa sala vazia: nos desapegamos de tudo, do corpo, dos 5 sentidos, dos prazeres sensuais, dos prazeres dos Jhanas (meditações profundas), da volição, e agora temos uma sala maravilhosa e vazia. Mas há um problema: nós ainda estamos no centro da sala! Como ela está vazia, se há um processo ali no meio sabendo que ela está vazia? Então, Maha Boowa fala que a Iluminação requer que reconheçamos que nem a mente, essa natureza do "Sabedor", é o Eu, então, não podemos ficar cegos e apegados a ela, temos que nos desapegar e observar isso com atenção. Aí Ajahn Brahm diz:
[Ajahn Brahmavamso]: "Se a mente focar nisso, a mente para. Quando a mente recomeçar novamente, realiza os estados de Arahant ou Anagami, essas são as únicas duas possibilidades." - (retirado de Os Jhanas - Terceira Parte - acessoaoinsight)
Agora, se a mente para, o que sobrou? Não tem mais corpo, não tem mais volição, não tem mais 5 sentidos, nem o sexto, que é a própria mente. O que há? De acordo com os Arahants e com o Buda, isso é Nirvana:
[Buda]: “Existe aquela esfera da existência em que não há nem terra, nem água, nem fogo, nem ar; não há a experiência do espaço infinito, nem da consciência infinita, nem do nada, nem da nem percepção, nem não percepção; ali não há nem este mundo e tampouco outro mundo, nem sol, nem lua. Nessa esfera da existência, eu digo, não há vir, nem ir, nem permanecer; não há morte nem renascimento; não há base, não há evolução e não há suporte (objeto mental). Isso, justamente isso, é apenas o fim do sofrimento.”
Quando você lê isso, fica complicado combinar isso com uma ideia difundida por alguns mestres Budistas, de que Nirvana é "se dissolver no Todo". Se a mente parou, "o que" dissolveu no Todo? Que Todo? Onde está a Individualidade? Onde está o "Eu"? É complicado falar se é isso, se não é isso, se é tanto isso como não-isso, se não é nem isso como nem não-isso, não é uma questão simples.
Eu escrevi tudo isso para terminar dizendo que não tenho como falar rs Tudo isso é pura especulação minha e sua. Será que Personalidade é o que somos de vida em vida, mas há uma Individualidade eterna (não me parece que esse adjetivo encaixe) e imortal que retorna ao "Todo"?
Eu avisei que não ia poder falar pouco, sua questão é difícil rsrs... A compreensão TOTAL de Anatta, Não-eu, é que culmina em Nirvana. Enquanto houver algo que acreditemos ser o nosso Eu, mesmo a Mente, parece que continuaremos presos ao Ciclo de Renascimento, envelhecimento e morte. Se em Nirvana, a mente "para", "cessa", volta um pouco à atividade até a morte do corpo para entrar em Nirvana total (Parinirvana), o que seria Individualidade?
Eu acho importante compartilhar esse conhecimento do Cânone, mas não pense muito nisso. Reflita um pouco, e depois guarde esse conhecimento na mente. Até Nirvana, ainda haverá algumas dúvidas em nossas mentes, então não se incomode se não puder entender tudo.
Como eu disse, foi necessário falar da Lei de Karma, processo de Renascimento, natureza de Nirvana e da mente (Citta), além da doutrina de Anatta (Não-eu). Isso é o que eu sei, só na teoria, para te ajudar. Qualquer dúvida... Feliz  
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Mensagem Sab 28 Set 2013 - 23:28

Saudações,

Muita boa sua resposta. agradeço e muito pois me auxiliou...
Agora tenho que raciocinar: O que seria a mente? E porque não é sinônimo de alma já que possuem as mesmas características e processos?
Qualquer ajuda nesses pontos é válido!

Grande Abraço. Fraternalmente,
Júlio César Oliveira de Melo .'.
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Mensagem Dom 29 Set 2013 - 6:23

Como ensinado pelo Buda, Citta, a mente, é esse "Sabedor". Nós pensamos que os 5 sentidos, pensamento, volição, consciência, tudo isso seja a mente, mas não é. Pensamentos são as formações mentais, sentidos fazem parte dos agregados da Forma e das Sensações, Volição é uma coisa a parte que é desligada nos Jhanas.
A mente é "aquela que sabe", é um processo que continuamente observa os fenômenos a sua volta. Ajahn Brahm fala que isso funciona assim; "Eu sei que eu soube que eu soube", ou seja, a Mente não é uma coisa parada observando, mas um processo sutil e impermanente que sabe neste momento, e no próximo sabe outra coisa. Isso é a mente, "aquela que sabe".
Devido a essa natureza impermanente, a mente não pode ser a alma. Já ouviu em alguma religião falar da alma "cessando", parando de funcionar? O conceito de alma geralmente é visto como uma identidade que devido a suas ações poderá viver num paraíso ou inferno eternos, mas isso não existe no Budismo. O mais aceito é que mesmo a mente é Anatta, Não-eu. Em Nirvana, ela cessa, e só volta a funcionar porque ainda está ligada ao corpo. Mas quando o corpo morre, morre a volição e a mente, em vez de renascer, cessa de vez, porque não tem mais desejo para "comportar" um novo renascimento, não há mais coisa alguma que vejamos ser o Eu, que vejamos ser permanente. Além disso, quando se está experienciando somente Citta, não há Volição. Isso acontece a partir do segundo Jhana - você não tem mais poder de decisão. Você simplesmente observa, perde a capacidade de fazer qualquer coisa, isso só acontece com aqueles que alcançam um grau elevadíssimo de Desapego, geralmente são aqueles que alcançam um dos 3 Estágios da Iluminação antes de Arahant. Onde já se ouviu falar de uma alma que não tem poder de decisão? Experienciar a mente é isso: observar sem fazer coisa alguma. É por isso que os mestres sempre ressaltam que você só pode contemplar e desenvolver Insight com uma mente concentrada quando você sai de Jhana, porque durante Jhana a mente fica apenas experienciando a si mesma, todo o processo vai ocorrendo naturalmente, sem que você faça coisa alguma.
É por isso que quando se fala sobre Budismo com algumas pessoas, elas já exaltam que sua religião é melhor, que Jesus promete vida eterna ou outras coisas do tipo, porque os ensinamentos de Buda são profundos e, num certo ponto, até "assustadores". Buda foi o único mestre religioso que disse que não há alma, não há Ego, não há Eu, não há algo que seja permanente, tudo termina, mesmo a mente.
É engraçado, não? Buda não disse que morremos e acabou, como a Ciência; mas o Budismo também não pode funcionar como um consolo como as outras religiões de que há uma boa vida após a morte. Ele disse apenas de Causa e Efeito: enquanto você acreditar que algum processo impermanente e efêmero seja o seu Eu, você continuará renascendo para se deliciar com essa sua crença. Mas quando você for capaz de unificar sua mente e perceber que tal Eu não existe, só assim a mente pode cessar na paz do Parinirvana. 


Última edição por Administrador em Dom 17 Nov 2013 - 21:18, editado 1 vez(es)
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Angely

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Mensagem Ter 1 Out 2013 - 19:32

Administrador escreveu:
Além disso, quando se está experienciando somente Citta, não há Volição. Isso acontece a partir do segundo Jhana - você não tem mais poder de decisão. Você simplesmente observa, perde a capacidade de fazer qualquer coisa, isso só acontece com aqueles que alcançam um grau elevadíssimo de Desapego, geralmente são aqueles que alcançam um dos 3 Estágios da Iluminação antes de Arahant. Onde já se ouviu falar de uma alma que não tem poder de decisão? Experienciar a mente é isso: observar sem fazer coisa alguma. É por isso que os mestres sempre ressaltam que você só pode contemplar e desenvolver Insight com uma mente concentrada quando você sai de Jhana, porque durante Jhana a mente fica apenas experienciando a si mesma, todo o processo vai ocorrendo naturalmente, sem que você faça coisa alguma.
Quer dizer que para alcançarmos um grau elevado de meditação precisamos ser passivos? eu sempre me confundo nisso, como agir na meditação? As vezes penso que estou "mexendo" muito na mente, outras horas eu fico achando que estou muito passiva, como agir corretamente? Como assim?
desculpe se está saindo do assunto, mas é uma questão qeu tenho
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Mensagem Qui 3 Out 2013 - 6:54

Tudo bem Angely Feliz 
No caminho ao Nirvana temos três atitudes a serem estimuladas: Esforço, Concentração e Equanimidade. Você pode perceber que eles são diferentes entre si. O que acontece é que precisamos investigar a que momento usar cada um deles. Em algumas situações, precisamos fazer um Esforço para desapegarmos e resistirmos às tentações dos nossos apegos. Outras vezes precisamos nos "concentrar" nesse desapego e permitir que a mente pacifique. Em outras situações não fazemos nada, apenas observamos de forma pura, sem qualquer conceituação, por meio de Upekkha, Equanimidade.
[Buda]: "Um bhikkhu dedicado ao treinamento da mente superior, no momento apropriado, deve dar atenção a três sinais. Ele deve no momento apropriado dar atenção ao sinal da concentração, no momento apropriado dar atenção ao sinal do esforço energético, no momento apropriado dar atenção ao sinal da equanimidade." - (retirado de Nimitta Sutta - acessoaoinsight)
Logo, haverá situações em que você deverá ser "passiva", em outros momentos você deverá ser ativa, em outros você deverá apenas observar, em outros silenciar, em outros fazer um esforço... Mas você não deve focar em apenas um desses aspectos. Saiba usar cada um deles no momento apropriado, só assim você poderá enxergar Anatta, Karma e a realidade de "quem somos", se é que há um "eu" para "ser". Rindo 
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Karma, Personalidade e Individualidade

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